Verão
"É frutóchocolate, olhó gelado" Este pregão morreu?
por Sílvia Caneco, Publicado em 21 de Julho de 2010
Esqueça os gelados e a bolacha americana. Agora o negócio das praias resume-se a bolas de berlim, línguas da sogra, batatas fritas ou pipocas
Manuel Nunes anda pela praia com a pressa de quem não anda a vender bolos. Em vez de sondar os corpos estendidos ao sol e de apregoar em busca de clientes, anda tão rápido que a mala que carrega a tiracolo parece a qualquer momento ir deslocar-lhe o ombro. Distingue-se ao longe pela T-shirt branca mas sobretudo pelos jeitos de varina, segurando um tabuleiro no alto da cabeça. Quando o alcançamos, finalmente, e nos falta o fôlego para explicar o que queremos, encontramos um rosto mais assustado do que esbaforido. Manuel olha-nos de olhos esgazeados, levanta o pescoço como um galo e desata a correr.
Guarda o tabuleiro, uma caixa e uma mala térmica atrás de umas cadeiras do bar da praia e esconde-se atrás de umas espreguiçadeiras brancas. É magro, mas de repente fica espalmado. Pelo meio das ripas das cadeiras, nem se vê pele, é como se tivesse deixado de existir. Tem as manhas de disfarce de uma criança a jogar às escondidas, mas um ar de pânico que, conjugado com o rosto queimado e a cabeça careca, lembra o pavor que conhecemos das imagens dos prisioneiros de Auschwitz.
Mas porque está ele a fugir de nós tão assustado? Inventamos mil teorias, encenamos histórias e twists à David Fincher e prevemos desenlaces romanescos enquanto nos perguntamos se vale a pena uma nova abordagem. Será preciso um leve barulho de motor a aproximar-se para percebermos que a razão da fuga e do ar de susto tem outro nome: Polícia Marítima. Só quando o carro e o som do motor desaparecem, Manuel volta à areia como se não tivesse havido paragens. "Olhá bolinhaaaa, a bolinha de berlim..."
O homem que há 31 verões palmilha quilómetros nalgumas praias da Costa da Caparica com comida às costas e a quem desde 2003 falta uma licença - porque a Câmara de Almada deixou de passar cartão de vendedor ambulante, justifica - já aprendeu os melhores esconderijos e códigos de perigo e caminho livre que troca com empregados dos concessionários, banhistas ou salva-vidas.
Se for apanhado, terá de pagar uma multa de 60 euros. Mas nem se lembra disso quando repete como autista: "Não posso ficar sem o meu material. Se me apanham, roubam-me." Afinal, ainda faltam vender pelo menos umas 50 bolas de berlim e não convém falhar o alvo do negócio: vender entre 100 a 150 por dia. E ainda há águas e refrigerantes, batatas fritas ou línguas da sogra, "aqueles bolos que fazem lembrar uma língua, está a ver?". Não sabe quantas vezes percorre três praias da Costa para trás e para a frente mas não se cansa. "No Inverno tenho muito tempo para descansar, estou desempregado."
Mudam os tempos, muda o negócio No longo areal da Fonte da Telha, há apenas uma vendedora que não quer falar porque desde que falou "para a televisão" não pára de "ser perseguida pelas polícias e ASAEs". Os salva-vidas, que depressa percebemos serem a melhor fonte, explicam que o dia - segunda-feira - é mau. Os vendedores ambulantes também tiram folga.
Como os sininhos de aviso já eram e os pregões são cada vez mais silenciosos, na praia da Morena o melhor é seguir a pista antes de enterrar os pés na areia a escaldar: "O vendedor está vestido de preto." Toca a procurar um vulto negro entre centenas de chapéus coloridos e corpos transparentes ou torrados. Uma roda de crianças a pedir gelados em coro ajuda. José Silva Rocha, de 64 anos e 26 de vendedor ambulante, explica que já não vende gelados. "As pessoas queixavam-se que estavam derretidos. E eu só gosto de vender as coisas em condições." Há 26, quando começou a vender nas praias da Morena e da Princesa, as condições eram outras: ou não fosse a era pré-ASAE e pré-concessionários. "Não era preciso nem mala nem gelo. Andávamos com uma caixa de gelados e vendíamos num instante", diz o brasileiro de Olinda que suporta a torreira do sol com roupa preta desde que a mulher, "uma vendedora das boas", morreu há dois anos. "Faz calor, mas uma pessoa habitua-se", reforça José, enquanto suamos só de o olhar todo de preto, quase sem pele à mostra.
Os carros de rodas e as arcas dos gelados, o "rajá fresquinho", o "é frutóchocolate, olhó gelado" procuram-se. Ninguém sabe deles, ninguém os viu. Como também ninguém mais soube dos nougat ou da "bolachinha americana" (ainda se lembra da criançada a repetir em coro "para o tio e para a mana"?). Os vendedores são menos e os negócios são outros. A bola de berlim nunca passa de moda: a moda nova é haver sem creme. Repetem-se outros bolos, as línguas da sogra e as pipocas. O Sr. José ainda se aventura pelo pão com chouriço e folhados de carne, mas nem sempre. "Hoje como é segunda-feira é só bolas com creme e sem creme."
Nas praias da Linha, só António Miguel, com uma geleira tão pesada que o corpo parece estar prestes a rachar-se em duas metades, tem tempo para um retrato em Carcavelos. "Mas rápido, rápido." Num segundo olha para a máquina, no outro desanda a debitar à velocidade dos rodapés dos anúncios: "Olhá batatinha frita, olhá a cerveja e a coca-cola, olhá' guinha fresquinha." Há 40 anos, recordará noutra breve paragem, era um miúdo de 14 recém-chegado de Viseu que ia para Carcavelos vender batatas fritas aos palitos, feitas em casa.
Na Linha de Cascais definitivamente não é um bom dia para os vendedores de praia. "Agora não, que é hora do lanche", torna-se a desculpa predilecta dos vendedores para não falar, como se já premeditassem ter pouco tempo para esgotar as bolas de berlim do tabuleiro. As carrinhas da Polícia Marítima chegam a todas as praias, de Santo Amaro de Oeiras ao Estoril. Vistas de cima, de repente nada de T-shirts brancas, nem de tabuleiros ou caixas de bolos à cabeça, nem corpos tortos como o do Sr. António. Andam há tempo suficiente nisto para conhecerem os truques e se tornarem invisíveis.
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