EDITORIAL

Não, não se pode escondê-los no armário

por Francisco Camacho, Publicado em 02 de Junho de 2009   
O casamento gay voltou aos jornais este fim-de-semana. Não é uma questão de "moda". É um assunto tão sério como outro qualquer
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Já todos ouvimos disparates sobre o casamento gay. Deixemos de parte os absurdos, que vão desde a necessidade de repensar a família às manifestações do demo. Falemos dos disparates comuns. Entre esses, um dos mais extraordinários é também um dos que mais pegaram: o de que o casamento gay é a questão "fracturante" da "moda".

A palavra moda, como se sabe, encerra uma certa futilidade. Serve para desclassificar o que consideramos oco e efémero. A expressão fracturante não é melhor. Transformou-se num sinónimo de anedota. Um político espirra e temos uma questão fracturante.

O casamento entre homossexuais seria, portanto, um capricho, uma tolice, uma conversa fútil e passageira lançada por uma certa rapaziada da política para dar nas vistas. Pode até ser verdade, essa de dar nas vistas. Os políticos, do Bloco de Esquerda ao CDS, são especialistas em chamar a atenção. Faz parte do ofício. Mas, com o devido critério, merecem o benefício da dúvida. Admita-se que há bondade em certas propostas. Como nesta em concreto: permitir que duas pessoas do mesmo sexo se possam casar.

Parece tão simples. E então logo alguém se indigna: com tantas questões urgentes para resolver, vai agora perder-se tempo a discutir o casamento gay? E o desemprego? A crise. Outro disparate. Equivale a defender que não se deve investir na exploração espacial enquanto não se erradicar a fome do planeta. Ainda que o autor da tirada seja um Nobel, uma coisa nada tem a ver com a outra. Não é por desistirmos do sonho caro de chegar a Marte que a taxa de mortalidade no Corno de África vai cair.

Num mundo ideal, seria mesmo um disparate perder tempo a debater o casamento gay. Pelas razões opostas. Porque é um direito individual elementar e porque, de tão evidente, a discriminação de que os homossexuais são alvo em países como Portugal (ao contrário da tão ou mais católica Espanha) pura e simplesmente não devia merecer discussão. Mas, infelizmente, merece - ainda este fim-de-semana, cerca de mil personalidades assinaram uma petição de apoio ao Movimento pela Igualdade no acesso ao casamento civil.

E merece porque há demasiados portugueses com uma resistência mesquinha a esta mudança. É crença generalizada que os gays e as lésbicas são promíscuos e incapazes de assumir compromissos duradouros ou que a homossexualidade é uma opção contrariável. Mas, dando de barato todos esses preconceitos idiotas, a questão é esta: o que têm os heterossexuais a perder se o Estado consagrar o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo? Nada.

Depois há o medo, que dá azo às interpretações mais variadas. Quem viu o filme "Milk" , se não percebia até que ponto o medo irracional pode travar a conquista de uma minoria, terá ficado esclarecido.

Este não é um assunto da moda. Se é mais ou menos importante do que outros, tudo vai da perspectiva: pergunte-se, por exemplo, aos homossexuais que querem casar-se. E pergunte-se já: qual é o problema?

 



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