Tive o meu primeiro treinador com oito anos. Na altura, futebol era apenas o que se via na televisão. Na escola, o recreio era usado para jogar à bola. Recordo-me dos momentos que antecederam o primeiro treino como se fosse hoje. Era natural. Na altura, o futebol e o meu clube, o que jogava e o clube pelo qual torcia, eram praticamente a minha vida toda e nada me interessava mais do que uma bola nos pés. E é por isso que me lembro de um dos primeiros desafios propostos pelo meu primeiro treinador: "Qual é a melhor forma de jogar para não sofrer golos?"
A pergunta era mais complicada do que parecia e, se calhar, ainda hoje o leitor poderá não aparecer com a resposta na língua. As respostas, de crianças ingénuas de oito e nove anos, sucediam-se. Ouviu-se de tudo, desde defender bem, estar concentrado a defender com superioridade numérica (sim, confesso que na altura não utilizávamos estes termos tão profissionais e maduros). Por mais respostas que déssemos, parecíamos estar cada vez mais longe da resposta certa. Até que ela surgiu da boca do próprio treinador: "A melhor forma de não sofrer golos é ter a bola. Não deixar que o adversário tenha a bola". Confesso que na altura, e recordo que estamos a falar de 1993, um ano em que Portugal foi arrasado pelo catenaccio italiano rumo ao Mundial-1994, a solução tão procurada passou-me um pouco ao lado.
A aprendizagem continuou e novos treinadores vieram. Três anos depois, cruzei-me com o mesmo treinador. As palestras antes dos jogos continuavam a ter esse conselho precioso: "Lembrem-se que só há uma forma de não sofrermos golos: ter a bola na nossa posse". Por cada ano que passava, aquelas palavras faziam mais sentido. E, de repente, estamos em 2006. Já tenho 21 anos, já não jogo, mas agora sou o treinador. Eles, os jogadores, eram mais velhos do que eu era, tanto em 1993 como em 1996, mas o desafio continua a deixá-los boquiabertos. Curiosamente, um ano depois, fiz um trabalho para a faculdade com o mesmo treinador: afinal de contas, estava no 30.º ano consecutivo a treinar escalões de camadas jovens. Foi com um sorriso no canto da boca que o ouvi dizer novamente a mesma coisa, antes de um jogo.
Voltando a este DeLorean que nos faz avançar e recuar no tempo à boa moda de Michael J. Fox, ou Marty McFly, se preferirem, estamos em 2010 e a Espanha acaba de se sagrar campeã mundial. Ao lado, vejo o Filipe Duarte Santos falar do "catenaccio ofensivo" e não consigo deixar de concordar de imediato. Nem mais. E lembro-me do tal desafio.
A Espanha foi o intérprete perfeito dessa filosofia. É verdade que perdeu com a Suíça e até sofreu um golo com o Chile. É verdade que chegou a tremer, durante alguns instantes, em todos os jogos a partir dos oitavos-de-final, mas para a história ficam as quatro vitórias por 1-0, a Portugal, Paraguai, Alemanha e Holanda. Em todos os jogos, o domínio na posse de bola não chegou a estar em causa sequer. Em todos os jogos, jogadores como Xavi e Iniesta brilharam ao mais alto nível. É um luxo a uma equipa ter jogadores com esta qualidade, que conseguem trocar as voltas aos adversários, seja no meio-campo defensivo ou no ofensivo. Xavi, Iniesta, Busquets e companhia conseguem jogar apoiado e com segurança até à área do adversário. É verdade que não criam tantas oportunidades como desejariam, mas quantas vezes foi a Espanha encostada às cordas depois de ficar em vantagem?
A Espanha veio dar uma nova alma à expressão do catenaccio. Quem jogava contra a Espanha sabia de imediato que sofrer um golo era estar com a cabeça na guilhotina. Como se rouba a bola a uma equipa onde todos os jogadores, talvez tirando Puyol, têm uma qualidade técnica muito acima da média? A vencer, a Espanha não recuava, não punha o autocarro em campo. Pelo contrário, avançava no terreno e trocava a bola junto à baliza adversária. Dava significado a cada passe efectuado, a cada segundo que passava, que a melhor forma de não sofrer golos é... ter a bola no pé. E passá-la. E passar a mensagem de que aquele jogo já não foge. Que está ganho. Que vão ser campeões do mundo. Mesmo que esse golo só surja a três ou quatro minutos do fim.
No futebol já não há nada para inventar. Acredito que este primeiro treinador não seja o dono da filosofia da bola no pé. A diferença é que esta Espanha de 2010 executou na perfeição essa teoria. Preferia outro campeão mundial mas confesso que não consigo evitar um sorriso quando me lembro do desafio de há 17 anos. Ele tinha razão.




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