Ciclismo
Radiografar o Tour. Eis a solução para o doping mecânico das bicicletas
por Mariana Pinheiro, Publicado em 07 de Julho de 2010
As bicicletas da Volta a França fazem um raio-X no final das etapas. Cancellara tinha razão, nada foi encontrado
Afinal era mentira. O motor estava no corpo, alojado no coração, debaixo de uma camisola amarela viva; e não no quadro de uma bicicleta de corrida. Fabian Cancellara foi o primeiro a vestir a amarela no Tour deste ano. "Esta vitória é para calar os rumores que insinuam que utiliza uma bicicleta com motor?", pergunta um jornalista do "Le Monde" ao ciclista suíço, da Saxo Bank. Spartacus, como é conhecido Cancellara, enfatizou: "É o meu coração." Mas a UCI ProTour não foi na cantiga e confiscou a bicicleta do ciclista para averiguação.
A polémica surgiu por causa de um vídeo publicado no YouTube (que já teve mais de 2,6 milhões de visualizações), em que as prestações do ciclista são analisadas ao pormenor. Insinuam que o movimento que Cancellara faz com os dedos antes de um sprint fenomenal activa um engenho motorizado (igualmente incrível), instalado dentro da bicicleta, que funciona com uma bateria e é capaz de atingir os 60 quilómetros/hora. E uma série de Velhos do Restelo brotaram do chão, empenhados em deitar mais lenha para a fogueira. Anthony Roux, corredor da Française des Jeux, lançou para o ar a afirmação: "Todos acham que ele é incrível, mas gostaria de saber se isso é verdade ou não." Um anónimo jurou a pés juntos que tinha ouvido um ruído estranho vindo da bicicleta de Cancellara e Davide Cassani, antigo ciclista italiano, aparece no vídeo a parodiar a situação. "Com esta bicicleta motorizada, podia vencer uma etapa no Giro d'Italia mesmo que tivesse 50 anos."
A 2 de Julho, os comissários do Tour emitiram um comunicado a anunciar que todas as bicicletas na competição seriam submetidas a um controlo de raio-X, "para evitar suspeições quanto a motores eléctricos". A análise seria feita numa tenda perto do sítio onde regularmente se fazem os teste antidoping. A UCI está atenta. Consideram que esta é uma nova forma de doping, é uma dopagem mecânica, e já fez saber que não vai descansar enquanto não vir o assunto resolvido. "É nossa responsabilidade moral pôr um ponto final nestas especulações. Regemo-nos por critérios de transparência".
O prólogo de sábado levantou ainda mais suspeitas. Cancellara correu 8,9 quilómetros em 10 minutos (numa média de 53,4 quilómetros/hora). O ciclista respondeu à provocação. "Disse ao oficial que apreendeu a minha bicicleta que é a mim que têm de fazer o raio-X, o motor está dentro de mim." Mas houve também quem saísse em sua defesa. Yvon Sanquer, manager da Astana, disse que o ciclista da equipa adversária tinha feito uma boa prova e que não podia ser crucificado. Cancellara recuperou ontem a amarela e tal como todas as outras, a sua bicicleta foi radiografada no final da prova. Ninguém se lembrou que talvez ele seja mesmo bom naquilo que faz.
Veja o vídeo sobre Cancellara e a bicicleta alterada:
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