Mundial-2010
"Foi o Weah que me ensinou a fazer o nó da gravata"
Publicado em 07 de Julho de 2010
Capitão do Cannes aos 19 anos, do Arsenal aos 25 e da França aos 28. Campeão do mundo aos 22. E só aos 33 é que fala ao i...
Um uruguaio, um alemão, um argentino, um brasileiro e um francês entram num jornal. Mas isto é alguma anedota ou quê? Não, é o i a falar com os campeões do mundo. Depois de Ghiggia, Matthäus, Kempes e Nilton Santos, hoje é a vez de Patrick Vieira. Apanhámo-lo em Verona, no seu último jogo pelo Inter.
Muito se fala dos 15 minutos de fama. Em 1998, jogaste os últimos 15' da final com o Brasil. De que te lembras?
Do Jacquet [seleccionador de França] a dizer-me qualquer coisa, depois da expulsão do Desailly. O som ambiente era ensurdecedor. Só entendi o Jacquet pela leitura dos lábios, qualquer coisa como "Patrick, prepara-te." Um nervoso miudinho percorreu-me a espinha.
Então?
Só tinha 22 anos e tudo aquilo era forte, emocionante de mais.
Mas tu sempre foste precoce. Estreia no Cannes aos 17 anos, capitão aos 19, idade com que assinaste pelo Milan. Como foste lá parar?
Uma aventura inexplicável, louca.
Falou-se de rapto?
Bemmmm, não está longe da verdade. Acabei o treino do Cannes, fui para um avião, um jacto privado, cheguei a Milão, de repente estava numa sala e puseram-me um contrato à frente, eu não sabia uma palavra sequer de italiano, assinei e eu que nunca assinara nada. E pronto, estava no Milan. Aos 19 anos.
E só fizeste dois jogos.
Sim, mas o que aprendi naquele curto período de seis meses foi, brrr, todo um curso de educação táctica, técnica e profissionalismo ao mais alto nível.
Explica lá isso.
A equipa era um portento físico e técnico. Havia Desailly...
Ele ajudou-te, como compatriota?
Bien sur. Muito, muitíssimo. E outro que me deu tudo foi o George [Weah]. Foi o meu grande irmão. Ensinou-me a fazer o nó da gravata.
E Capello?
Um grande homem e um grande treinador. Ele treinava diariamente a equipa titular em 4x4x2 contra zero, sem ninguém à frente nem balizas. Se a bola fosse para a direita, toda a equipa tinha de defender aquela bola. Se fosse para a esquerda, idem. O simples trabalho de equipa em bloco, a coordenação defensiva, o posicionamento táctico. Eu era o 12.º elemento. Estava sempre atrás do Albertini. Nesses treinos, aprendi tudo o que sei. A base, com B maiúsculo.
Diz-se que o Savicevic treinava pouco.
Talvez tenha sido o jogador que menos vezes vi nos treinos em toda a carreira. Mas resolvia jogos com um toque de génio. Até nisso Capello geriu o balneário com mestria. No fim de contas, o grupo era só vedetas da bola, técnica e fisicamente falando, com cinco ou seis estrangeiros [Desailly, Vieira, Boban, Savicevic, Weah e... Futre], mas só podiam jogar três e todos andavam felizes.
Daí foste para o Arsenal.
Estive quase, quase no Ajax. Mas encontrei tantas vezes o Arsène [Wenger], que estava de saída do Nagoya Grampus Eight e ia muitas vezes ver o Milan ao Giuseppe Mezza, que assinei pelo Arsenal.
E lá, como foi?
Um sonho. Cheguei a capitão, fui campeão inglês sem derrotas. Lembro-me dos primeiros tempos de ver o Tony Adams [capitão] no uso da palavra antes dos jogos. Não percebia nada de inglês mas sentia uma emoção na voz dele que me arrepiava. E a equipa respondia ao estímulo. Ele era alcoólico e a equipa confiava cegamente nele. Que coisa! Que líder!
Como era a noite de Londres?
Viste-me jogar?
Sim, claro.
Como me definias?
Um poço de força. Elegante. Invisível.
Pronto, era aí que eu queria chegar. Na noite, também era invisível. Raramente ia a pubs. Quando ia, portava-me bem.
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