"A taça do mundo era enorme. E saborosa. De chocolate"

por Rui Miguel Tovar, Publicado em 05 de Julho de 2010   
Mario Kempes, melhor marcador e melhor jogador do Mundial-78, só tocou na taça verdadeira 28 anos depois, em 2006
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A Argentina já chegou a casa, vergada à inequívoca superioridade da Alemanha. O sonho do tri foi, uma vez mais, adiado. Agora só daqui a quatro anos, no Brasil. Para esquecer a frustração dos argentinos, o i falou com Mário Kempes, campeão em 1978, bem como melhor marcador e melhor jogador desse Mundial.

Señor Kempes, o Mundial é como...

Um íman. E olha que no meu tempo isso só significava ficar colado à rádio. Lembro-me dos relatos de José Maria Muñoz [famoso radialista argentino] no Mundial-66. Tinha 12 anos e estava a ajudar os meus pais a construir a casa. No horário dos jogos, e como não tínhamos televisão, interrompia a minha actividade profissional não-renumerada [risos] para escutar o Mundial.

E estreou-se em 1974, na RFA.

Mas era tão verde, tão inexperiente. Quando conheci os jogadores argentinos que actuavam na Europa [Yazalde, do Sporting, era um dos cinco] fiquei boquiaberto. Nem dizia coisa com coisa. Para mim, eram uns deuses da bola e, ao mesmo tempo, uns estranhos. Nunca os tinha visto, nem na televisão. Mas, pronto, eu estava num Mundial.

Mas só marcou em 1978.

Em 1974 fiquei a zero. Quatro anos depois, já com a experiência internacional acumulada [Kempes sagrara-se melhor marcador da liga espanhola, pelo Valência], marquei seis golos.

E a história do bigode?

Ah, também já se sabe aí? Bem, é mesmo verdade o que dizem sobre um mundo sem fronteiras nem barreiras de informação. Na primeira fase do Mundial-78, não marquei um único golo. Cheguei à Argentina via Valência no dia 8 de Maio e só começámos a jogar a 2 de Junho. Nesse período ficámos enclausurados no centro de estágio e nem me dei ao trabalho de fazer a barba. Como não marquei, o Menotti propôs: "Olha lá, ó Mario, e se tirasses esse bigode para ver se a tua sorte muda?" Coincidência ou não, marquei no jogo seguinte, frente à Polónia. A partir daí o Menotti inspeccionava-me a cara antes da palestra do jogo.

E a final que começou meia hora mais tarde porque alguém fez queixinhas?

Quem? Eu? Nááááá. Foi o Passarella. Juro. Ele era o capitão.

Sim, mas tu estavas lá metido no meio.

Pronto, OK, culpado. Eu e o Passarella víamos os outros jogos da selecção na televisão e detectámos que o Van Kerkhof [médio da Holanda] jogava com uma protecção de gesso no cotovelo. Na final, durante a moeda ao ar, o Passarella e eu fomos falar com o árbitro a alertar para o perigo de aquele gesso poder partir o nariz de alguém numa disputa de bola. Os holandeses diziam que não, nós que sim e os árbitros tomaram o nosso partido. Tudo isso demorou meia hora.

O tempo de um prolongamento. O dessa final, por exemplo. Mas e se aquela bola do Rensenbrink, no último minuto, tivesse entrado?

Nem quero pensar nisso. O Rensenbrink atirou ao poste e o Gallego afastou para longe dali. Naquele instante todo o estádio se calou. Era possível ouvir-se um papel a cair no chão. Meio segundo depois, o estádio delirou com o alívio do Gallego. Como se tivesse sido um golo.

Imagino a festa com a taça na mão.

Isso é que era bom! Só toquei nessa taça 28 anos depois, através de uma iniciativa da FIFA. Passarella [capitão de equipa], Larrosa, Bertoni e mais uns quantos "roubaram" a taça e não a partilharam com ninguém. Não houve volta de honra e nunca mais vi a taça. Nem no balneário, nem no jantar da festa.

Isso é que é azar.

Tocar nela ou não nunca me fez diferença. Mas houve um episódio curioso: pouco depois desse dia recebi em casa uma taça do mundo feita de chocolate. Era enorme e saborosa, mas não a pude comer toda. Fui ao pátio do meu prédio e dividi-a por todas as crianças, que, claro está, não deixaram nem um bocadinho para mim.


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