Adolescência

Puberdade. Querida, alguém está a encolher a infância

por Marta F. Reis, Publicado em 03 de Julho de 2010   
O peito começa a crescer um ano antes. Nos rapazes nota-se na voz. A ciência confirma, mas ainda não encontrou uma explicação
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Irene Mateus tem 33 anos disto: "As meninas de oito anos, agora?", ri. "Parecem as de 12, com maminhas e tudo... antes chegavam ao 3.o ciclo e às vezes ainda não tinham nada." Para a professora do 1.o ciclo em Rio Maior, a avaliação é empírica: "Tenho alunos com oito e nove anoso com uma sensibilidade muito desenvolvida para o namoro, para apreciar o sexo oposto e o corpo." Nas idas à piscina, conta, comparam o tamanho do peito. Nos SMS gabam-se dos músculos. "Preocupações com a roupa? Nem imagina..."

A ciência está cá para explicar: a puberdade começa cada vez mais cedo e o seu fim tem continuado a cair na última década. Um estudo dinamarquês publicado em 2009 na revista "Pediatrics" faz um dos últimos balanços: nas meninas, a idade média do início de crescimento do peito diminuiu de 10,9 anos para 9,9 em 15 anos, e o aparecimento do período cerca de quatro meses. Nos rapazes a puberdade, em média, começará três a quatro meses mais cedo do que nos anos 90.

O ponto de partida para um dos principais centros de estudo sobre a puberdade na Europa, o Departamento de Crescimento e Reprodução do Hospital Universitário de Copenhaga, foi uma pequena tragédia num dos mais famosos grupos corais da Escandinávia - o coro de rapazes de Copenhaga - em 2003, muitos dos pequenos coristas, admitidos a partir dos nove anos e então com 12/13 anos, não iriam poder participar numa tournée por estarem a mudar de voz cedo demais. Os investigadores decidiram agarrar o coro como caso de estudo, e em 2006 publicaram os primeiros resultados: num período de dez anos, as fífias adolescentes na voz tinham começado a aparecer em média quatro meses mais cedo. E quando mais forte fosse o rapaz aos oito anos, mais cedo isso acontecia.

Meses depois a investigadora Lise Aksglæde decidiu verificar a tese em raparigas, e acabaram por avançar com um estudo misto com 4000 adolescentes que revela que os sintomas da puberdade recuaram até um ano desde a década de 90. Há trabalhos a consolidar os resultados dinamarqueses um pouco em todo o mundo, também em Portugal. Um estudo da antropóloga Cristina Padez, da Universidade de Coimbra, concluiu que a idade da menarca entre as mulheres portuguesas caiu cerca de um ano entre a década de 70 e a década de 80, dos 13,18 anos para os 12,03.

Procurar novas explicações para este declínio é uma das preocupações dos investigadores nesta área. Sabe-se que nos últimos 150 anos, as melhorias na nutrição, higiene (por exemplo o facto de haver menos doenças infantis) e condições socioeconómicas nos países desenvolvidos, ter-se-á traduzido numa antecipação da puberdade, mas poderá haver outras como o stress familiar ou a exposição a toxinas, todos em estudo.

Meninos-adultos O desfasamento entre a idade física e a mental também provoca alguns receios. "A puberdade física e a social estão cada vez mais separadas. As crianças começam a desenvolver-se fisicamente em adultos antes de terem todo o tipo de informação sobre sexo, socialização e responsabilidade pessoais", defende Mark Bellis, autor de estudos sobre o impacto da puberdade precoce no comportamento (ver caixa). A opinião é partilhada por Teresa Paula Marques, psicóloga especialista em em contexto escolar: "Daqui a algum tempo teremos pessoas com aspecto de adultos mas com atitudes de crianças", diz.

Entre especialistas, importa contudo distinguir duas realidades: a idade média da puberdade, e os casos precoces e patológicos. "Para lá da maior precocidade da entrada na puberdade, em termos populacionais, há casos de entrada muito precoce, que mesmo que não traduzam nenhuma situação patológica, podem causar problemas, já que, socialmente, a autonomia e identidade da adolescência se fazem mais tarde", explica o pediatra Mário Cordeiro. Marcelo da Fonseca, da Sociedade Portuguesa de Pediatria, mantém que a puberdade normal "é progressiva e habitualmente tem início por volta dos 11 anos de idade no sexo feminino e dos 12 anos no sexo masculino".

António Piedade, especialista em antropologia biológica da Universidade de Lisboa acredita que pode estar em causa um ligeiro encolhimento da infância, sem que haja razões para preocupação. "Sempre houve infâncias mais curtas do que outras, o que importa é a qualidade", afirma. "Tem-se sentido o recuo mais no caso das mulheres, até porque no caso dos rapazes pode dizer-se que a puberdade é mais discreta. Costumo dizer que as mulheres parecem maduras antes de o serem, e os homens são antes de o pareceram. Verificamos que a melhoria das condições de vida, do ponto de vista nutricional às vezes até excessiva, aumentou os casos precoces e diminuiu os tardios. Mas quando as condições ambientais se degradam a fisiologia atrasa a sua maturidade", diz. Desvaloriza contudo a questão da maturidade psicológica, pela grande mescla que já hoje existe entre jovens. "Quem lida com crianças sabe que por volta dos 12 anos temos de tudo: meninas menstruadas, não menstruadas, rapazes sexualmente capazes e outros que não o são - são quatro grupos biológicos diferentes. Nunca poderemos estar todos completamente adaptados", diz.

Na prática, mais do que o salto físico, é a maturidade e a falta dela que salta à vista. António José Sarmento, professor de ciências no Colégio Planalto em Lisboa, só de rapazes, entende que mais do que o desenvolvimento físico nota-se que os alunos nos últimos anos são "infantis" durante mais tempo, e entram na puberdade por osmose. "A abordagem deve ser sempre esclarecer a curiosidade do jovem, mas que sentido faz um rapaz de 11 anos perguntar o que é um orgasmo, que não parte da sua experiência física nem estará no seu horizonte próximo?", diz. Já Zilda Azevedo, professora numa escola do 1º ciclo da região de Lisboa, nota que as conversas sobre os temas da puberdade vão e vêm por fases, também por exposição: há alunos mais velhos, pesa a integração nas escolas dos alunos de realidades desfavorecidas que trazem as brincadeiras de casa. Nos coros infantis portugueses para já ainda não há muitas vozes a rachar mais cedo. Talvez porque, como explica Erica Mandillo, maestrina do Coro Infantil da Universidade de Lisboa, a amostra de rapazes nos grupos não seja muito grande. Mas as meninas também mudam de voz, e nessas, é verdade, acontece mais cedo.


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