Mundial-2010
"Não me arrependo de nada. Nem daquele golo a Portugal"
por Rui Miguel Tovar, Publicado em 03 de Julho de 2010
Matthäus, o jogador de campo com mais jogos (25 ) em Mundiais, revela porque não marcou o penálti na final do Itália-90
Nationalmannschaft (selecção nacional). Deutscher Fussball Bund (federação alemã de futebol). Os alemães sempre tiveram essa capacidade de meter medo a qualquer um com os seus dizeres. Se a isto juntarmos um nome como Lothar Matthäus, aí o caso é mais assustador ainda. Porque ele é um monstro. No sentido figurado, claro. Com 25 jogos (recorde) em cinco Mundiais (recorde para um jogador de campo), Lothar foi campeão uma vez, em 1990, frente à Argentina de Diego Maradona, quatro anos depois de ter perdido a final do México-86 frente aos mesmos intervenientes e oito anos depois de ter perdido outra final no Espanha-82 com a Itália de Paolo Rossi. E agora a pergunta que se impõe: cabe na cabeça de alguém que um mito como Matthäus tenha acabado a carreira sem uma Taça/Liga dos Campeões? Não, claro que não, mas o destino (FC Porto-87 e Manchester United-99) impediu-o. Já em Mundiais, a competência do alemão nunca será beliscada. Até porque ele pertence à restrita galeria dos capitães que levantaram a taça do mundo.
Lothar, tornaste-te imortal há 20 anos. Como é que te sentes?
Como um comum mortal.
Mesmo com aquele golo a Portugal?
O quê? Não brinques comigo? Era disso que estavas a falar? De um golo num particular?
Não, claro que não. Só estava a testar os teus conhecimentos.
Ah, estás à vontade. Em Lisboa, no Estádio da Luz, não foi? 1-1, garantidamente [Lothar fez o 1-0 aos 14', de livre directo, com Silvino na baliza; Rui Águas empatou aos 58', com a irmã Lena d'Água na bancada].
Sim, correcto.
A minha memória continua boa.
Pois, os alemães costumam ser infalíveis em tudo.
Não é bem assim. Também tropeçamos e caímos.
Bah!, isso não se passou na tua geração. Foste campeão europeu em 1980 e mundial em 1990, de ambas as vezes em Itália. Fora o resto de finais e meias-finais perdidas. Vocês estavam em todas. Tens a noção que ainda hoje são uma selecção non grata para o resto do mundo.
Sim, normalmente ninguém gosta dos bons. Só mesmo nos filmes.
E a RFA/Alemanha era um filme interminável.
Ahhhh, bolas, vocês não perdoam.
Mas é verdade. De 1982 a 1990, foram às três finais do Mundial. E tu estiveste nas três.
Em 1982, só estar lá, no meio dos outros, já era uma satisfação. Só tinha 21 anos e com apenas duas internacionalizações, uma delas precisamente no Euro-80 que ganhámos à Bélgica. Não tinha, portanto, voz activa na equipa. Estava na parte mais baixa da hierarquia. Costumo dizer que havia a máfia do Colónia [Harald Schumacher e Pierre Littbarski], a máfia do Bayern [Paul Breitner e Karl Heinz Rummenigge] e a máfia do Hamburgo [Horst Hrubesch, Felix Magath e Manfred Kaltz]. Eu era apenas um miúdo do Borussia Mönchengladbach. Há leis que não estão escritas e aceitamo-las com naturalidade.
Mas tudo mudou em 1986.
Sim, aí já era diferente. Já era titular assumido e marquei um golo importante com Marrocos [que eliminara Portugal na fase de grupos] no último minuto que valeu a qualificação para os quartos-de-final. Chegámos à final desse Mundial com uma equipa de nível médio em termos de qualidade técnica individual. Porque Rummenigge estava lesionado e jogou a conta-gotas, sempre como suplente utilizado, exceptuando a final. Porque os outros dois avançados, Klaus Allofs e Rudi Völler, também começaram e acabaram esse Mundial com problemas físicos. Na final, tivemos a sorte de empatar um jogo perdido [de 0-2 para 2-2], mas fomos nós quem perdemos esse jogo, não querendo tirar mérito à justiça da vitória de Maradona e companhia. Se fossemos a prolongamento, ganharíamos nós. Mas não vale a pena estar aqui a imaginar isso.
Até porque ganharam em 1990.
Pois, claro. Mas aí merecemos nós a vitória. Fomos mais consistentes, do princípio ao fim do evento. Só para veres a nossa força: mal ganhámos na estreia [4-1 à Jugoslávia], nem a imprensa se deu ao trabalho de encontrar defeitos naquela selecção. Éramos os mais fortes e ponto.
Mas porque é que tu não marcaste o penálti da final? Pergunto isto porque foste tu o marcador do penálti frente à Checoslováquia, nos quartos-de-final, com o Brehme em campo?
É legítima, a pergunta. Acontece que rompi a sola de uma das chuteiras na primeira parte. Como sou distraído, não levei mais nenhum par para o estádio. Ao intervalo, um homem da Adidas deu-me o único par de botas disponível. Calcei-as mas elas não se adaptaram bem aos meus pés. Quando chegou a altura do penálti, confiei no Andi [Brehme]. Fomos companheiros de quarto durante todo o Mundial, pelo que eu e ele já tínhamos falado sobre isso. O Beckenbauer [seleccionador] aceitou sem problema. E pronto, está desvendado o mistério. Satisfeito?
Sim. E tu ficaste satisfeito em 1994 e 1998?
Nos EUA-94, partimos como favoritos. A nossa equipa era ligeiramente mais forte que em 1990, porque acrescentámos dois panzers: Stefan Effenberg e Matthias Sammer. Só que o espírito de grupo não era o ideal. Se em 1990 os titulares e os suplentes tinham estas posições bem definidas, em 1994 já não era assim. Perdemos com a Bulgária [1-2 nos quartos-de-final] mas tínhamos futebol para lhes ganhar. Em 1998, a mesma coisa, com a agravante de não haver um líder a quem os outros seguissem de olhos fechados. O espírito de grupo sofreu com isso e o resultado ficou à vista com a Croácia [0-3 nos quartos-de-final]. Mas sim, fiquei satisfeito. Foi uma carreira plena. Não me arrependo de nada. Nem do golo a Portugal.
Arghhh. Obrigado e abraço.
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