Mundial2010

"Só três pessoas silenciaram o Maracanã: Papa, Sinatra e eu"

Publicado em 02 de Julho de 2010   
Há 60 anos, o uruguaio Ghiggia resolveu a final do Mundial-50, com Brasil. "Em 2006 uma menina-polícia reconheceu-me no Rio. Foi arrepiante"
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Beckenbauer (Alemanha), Eusébio (Portugal), Figueroa (Chile), Romero (Paraguai) e Petkovic (Sérvia). Ghiggia foi apenas o sexto estrangeiro, e o 100.o jogador, a deixar a sua marca na Calçada da Fama do Maracanã, o estádio mais conhecido do mundo, cujo museu não tem qualquer registo relativo à final do Mundial-50, perdida pelo Brasil para o Uruguai (2-1). Com um golo de quem? Ironia das ironias, de Ghiggia. Hoje com 83 anos, o extremo-esquerdo vive tranquilamente em Montevideu, como qualquer outro comum mortal, sem mordomias nem manias. Por telefone, Ghiggia fala do seu tempo, em dia de Uruguai-Gana.

Já passaram 60 anos do Maracanazo. Lembra-se do 16 de Julho de 1950?
Primeiro, começo pelo dia 15. Na véspera da final, três dirigentes da federação uruguaia reuniram-se com os jogadores para nos dizer que tínhamos cumprido o nosso papel, que tínhamos jogado limpo e que se o Brasil não nos fizesse mais de três ou quatro golos já se podia considerar uma vitória.

Mas então foi com esse espírito que entraram em campo?
Não, não. O nosso capitão, Exmo. Obdulio Varela, é que nos deu a táctica.

E que ele fez?
No túnel, enquanto os brasileiros entravam em campo, juntamente com os árbitros, ele travou-nos e disse-nos: "Esqueçam tudo o que ouviram. Aqueles [dirigentes] não percebem nada disto. E esqueçam tudo o que ouvirem daqui em diante, durante 90'. Os de lá fora são postes. Não lhes liguem. Nós só cumprimos o nosso papel se ganharmos. Se sairmos daqui como campeões do mundo, cumprimos o sonho do nosso povo e é para ele que jogamos. Portanto, temos de fazer um sacrifício para dar uma alegria aos uruguaios." Foi isso que ele disse.

E depois?
A eles bastava-lhes o empate. A nós, só a vitória servia para ganhar o Mundial [na única vez que houve uma fase de grupos para decidir o campeão, no sistema de quatro equipas, todos contra todos].

No início da segunda parte, Brasil 1-0.
Exactamente, por Friaça. Enquanto os brasileiros entraram numa histeria colectiva sem fim, o Varela foi à nossa baliza com a maior das calmas e saiu de lá a bater a bola no chão, rumo ao meio-campo. Ao passar por nós, ia dizendo: "Isto só agora começou. Eu ainda quero ir festejar o título em Copacabana. Acompanham-me?'

E?
Marcámos dois golos, um pelo Schiaffino [58'] e outro meu [79'], em que o remate me sai rasteiro e potente, entre o poste e o guarda-redes [Moacir Barbosa]. Bem, nunca vi um silêncio assim. Eram mais de 200 mil almas silenciosas.

A culpa é sua.
Uma vez disse aos jornalistas brasileiros que só três homens silenciaram o Maracanã: o Papa, Frank Sintra e eu. Portanto, sim, declaro-me culpado! Não só baralhei os brasileiros, como ainda obriguei o Jules Rimet [presidente da FIFA] a fazer um caminho inesperado.

Porquê?
Para não correr riscos, ele [com 79 anos] desceu para o relvado quando ainda havia 1-1, escoltado pela polícia. Quando chegou ao relvado, já não estava lá nenhum jogador. Por isso recebemos a taça no balneário. Foi a primeira e única vez.

Lá se foi o protocolo. E os adeptos?
Há quatro anos fui ao Maracanã meter o meu pé na calçada da fama. Aterrei no Rio de Janeiro e uma menina-polícia dos seus 20 anos revistou-me o passaporte: "Você é o Ghiggia?" Fiquei a olhar para ela a ver se lhe via alguma ruga e nada. Perguntei-lhe como é que sabia se o Maracanazo tinha sido há 56 anos. E ela respondeu-me: "Não, todos nós ainda sentimos que esse jogo foi hoje." Foi arrepiante.


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