Dança

O Portugal de Pina Bausch tinha luz, fados e vinho tinto

por Vanda Marques , Publicado em 30 de Junho de 2010   
Um ano depois da sua morte, o Teatro São Luiz homenageia Pina Bausch. O i foi à procura dos locais preferidos da bailarina e coreógrafa em Portugal
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Fernando Lopes teve de escrever o nome da ilustre cliente à D. Graça. Não havia meio da dona do restaurante Ideal, em Cabanas de Tavira, perceber como se dizia Pina Bausch. "Ainda tenho esse papel. O Sr. Fernando Lopes é que vinha para aqui de férias com a Sra. Maria João Seixas. Foram eles que me explicaram que Pina Bausch era a diva do ballet. Era uma pessoa muito tímida e tinha um tom de pele invulgar. Nunca a esqueci." Quanto a gostos, D. Graça não se lembra ao certo o que comeram durante as férias no Algarve. "Os senhores [Fernando Lopes e o marido de Pina] gostavam de peixe frito, as senhoras não me lembro e não sou pessoa de inventar."

Podemos apostar que Pina não terá comido muito, como era seu hábito, que fumou e pediu um copo de vinho tinto, como tanto gostava. Estávamos em 1999 e a coreógrafa alemã já era uma visitante assídua de Portugal. Um ano após a sua morte, o Teatro São Luiz, em Lisboa, faz questão de relembrar a maior coreógrafa da dança contemporânea. Jorge Salavisa, na altura director do São Luiz, actual director do Teatro São Carlos, escolheu dois jovens para a homenagem. Cláudia Galhós, jornalista, que escreveu "Pina Bausch - Sentir Mais" e o realizador João Salavisa. "O livro tem elementos da biografia de Pina, mas não é uma cronologia. Tem muitas vozes de amigos portugueses, entrevistas que a coreógrafa deu, material inédito e interpretações da sua obra", explica ao i Cláudia Galhós. João Salaviza ficou com a tarefa de fazer um filme sobre Pina Bausch. "Não queria mais um documentário tipo Biography Channel. O João Salaviza escolheu a última dança no São Luiz ("Café Müller", 2008) e trabalhou sobre ela", diz Jorge Salavisa. O director está orgulhoso do programa de hoje no São Luiz (ver caixa), e diz que poucas capitais vão igualar a oferta. O i decidiu mostrar-lhe o Portugal de Pina Bausch.

Restaurante
De Portugal falava sempre das pessoas e da luz, conta Jorge Salavisa. Gostava das antiguidades da Rua de São José, em Lisboa, chegou a ir ver um casamento de ciganos, mas preferia os jantares com amigos. De preferência num restaurante cheio. "Uma vez reservaram uma sala afastada da confusão e Pina ficou frustrada", diz Cláudia Galhós. Jorge Salavisa recorda que iam aos restaurantes do Bairro Alto, Alfama e Madragoa, como o Varina da Madragoa. Mas também aos menos populares, todos na capital. "Fomos ao Gambrinus e ela ficou fascinada com o Sr. Dias a fazer um crepe suzete."

Vinho tinto e petiscos
"Pina Bausch só bebia vinho tinto, nem branco, nem conhaque, nem whisky", conta o coreógrafo Jorge Salavisa. A alemã era apreciadora de vinhos portugueses, quanto a comida não há muitas informações. "Era um pisco a comer. Não ligava muito a comida, só petiscava."

Sardinhas
O marido de Pina Bausch, Ronald Kay, descobriu a origem da melancolia nacional numa travessa de sardinhas. "Ele leu num artigo científico que as sardinhas portuguesas tinham uma substância que causava a melancolia." Numa tasca, Maria João Seixas terá então pedido para Pina e Ronald uma "dose de melancolia", diz Cláudia Galhós.

Casas de Fado
Da mais brejeira à mais chique. Pina Bausch deve ter percorrido todas as casas de fado de Lisboa. Jorge Salavisa lembra-se de a levar ao Sr. Vinho e à Parreirinha de Alfama. "Íamos para os fados até às tantas. Ela ficava deliciada com a música e com as posições do fado. Dormia muito pouco, mas no dia seguinte estava fresquíssima."

Cabo-Verde em Lisboa
"Levei-a várias vezes a restaurantes cabo-verdianos, como o do Bana, o do Tito Paris em Alcântara (Casa da Morna) e ao B.Leza. Ela gostava muito do ambiente." Os amigos nunca esqueceram a noite na discoteca B.Leza. "Ela ficou sentada num cadeirão, a fumar e a olhar. Ficou maravilhada", recorda Cláudia Galhós.

Alunos de Apolo
"Pina dormia muito pouco. Era uma noctívaga, mais do que boémia", conta Jorge Salavisa. Em 1989 foi aos Alunos de Apolo, em Lisboa. "Eles foram muito gentis e até abriram uma excepção: Pina pôde fumar no salão de baile", diz o director. Nessa noite, um dos bailarinos ganhou coragem e desafiou-a para dançar. Ela aceitou.

Tavira

Do Algarve conhecia melhor Cabanas de Tavira. Passou o mês de Julho de 1999 no Forte de São João com o marido, Roland, o realizador Fernando Lopes e Maria João Seixas e mais dois amigos. Passava o dia no quarto, enquanto os outros iam à praia. Quando voltavam, era conversa até de madrugada.



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