Os jornais espanhóis não tinham razão - os jornalistas nacionais não tinham as malas feitas - mas o excesso de respeito de Portugal por Espanha, diluído numa incapacidade gritante de esticar o jogo na frente, acabaram por montar esse filme: a selecção perdeu 1-0, deixou de ser "Invictus" (e Eduardo foi o navegador que mais impediu que entrasse mais água na nau) e está afastada do Mundial-2010. E de forma justa: os comandados de Del Bosque foram superiores, podiam até ter marcado mais (Casillas fez uma defesa) e mostraram que, dois anos após o Europeu, são sérios candidatos ao maior título. Quanto a Portugal, Queiroz falhou nos jogadores (nem tanto na estratégia) e nas substituições; Ronaldo esteve mal em tudo.
No hino, o capitão foi o único que não cantou (ao contrário de Pepe). Momentos antes do início, levantou os braços e pediu inspiração divina para o duelo onde todos os olhos estavam nas suas movimentações, nos seus sprints, na sua técnica, nos seus remates. Individualmente, Espanha tem melhores valores mas o número dois do mundo, outrora líder, é português. E esse acabou por ser um dos problemas da selecção na primeira parte: os olhos os jogadores nacionais estiveram demasiado centrados em CR.
Um, dois, três. A Espanha fez mais remates perigosos à baliza nos primeiros sete minutos do que as alterações de Queiroz no onze (3-2). Torres, El Niño, tentou criar um terramoto pela zona de Ricardo Costa; Villa imitou-o. Mas bastou um bombeiro para segurar o nulo: Eduardo, provavelmente o melhor guarda-redes neste Mundial até ao momento. O problema é que até o guarda-redes se focava demasiado no capitão português, como aos 26 minutos, quando podia ter pontapeado a bola para a direita (Simão sozinho) mas preferiu dirigir a trajectória para a esquerda (Ronaldo marcado). E assim se perdia mais uma jogada de hipotético perigo.
Enquanto os adeptos gritavam "uuuhhh" quando o último passe dos espanhóis saía demasiado comprido (62% de posse de bola explica o desequilíbrio), Queiroz fazia "aahh" na primeira fase da transição ofensiva nacional - a bola custava a sair e, por vezes, até era perdida em zonas proibidas. Porque quando a equipa conseguia esticar, e quase sempre pelo mais franzino e leve jogador (Coentrão, um monstro), surgiam boas oportunidades como um remate de Tiago ao lado (20') ou um cabeceamento (?) de Hugo Almeida por cima (39'). De resto, só as bolas paradas de Ronaldo (Vicente Del Bosque teve razão em alguns períodos: era ele e dez a defenderem) . E a Espanha, sempre com o cérebro Xavi a liderar, a jogar... sem chances.
A boa teoria de Portugal esbarrou numa má prática: a equipa queria matar o adversário no contragolpe mas não conseguiu sequer fazer aquela faena prévia. Valeu a solidariedade e o espírito de entreajuda do meio-campo nacional, que foi acompanhando a tentativa de toureio a pé dos espanhóis com paciência, coração e uma boa dose de coragem (Tiago e Pepe atiraram-se ao chão de qualquer forma para evitarem alguns remates) e humildade.
A segunda parte começou com tendência semelhante mas a coxa de Puyol, que quase fez autogolo a cortar um cruzamento de... Hugo Almeida, equilibrou a balança. Danny entrou para dar velocidade ao ataque, Llorente trouxe mais presença ofensiva à Espanha. E deu o mote para a decisão do jogo: aproveitando uma das raríssimas falhas dos centrais portugueses, cabeceou para grande defesa de Eduardo (61'). A seguir, Villa atirou a rasar o poste; por fim, o golo - El Guaje, que já tinha entrado na história de Espanha com o golo apontado ao Chile (tornou-se melhor marcador da Roja em Campeonatos do Mundo), quis passar (mais) para a história deste Mundial e, na recarga, fez 1-0. Festa vermelha no Green Point, que por pouco - e mais uma vez por causa do santo Eduardo - não aumentou por Ramos. Minutos depois, Villa e... nova defesa.
Queiroz esgotou as substituições com as entradas de Mendes e Liedson mas Ronaldo encolheu os braços e parece ter ficado a perguntar "Agora como é que vamos para a frente?" A questão ficou sem resposta, o madeirense acabou a época sem títulos, o sonho do técnico (meias-finais) esfumou-se e Deco saiu da selecção por uma porta que não merecia: a mais pequena que tem escrito "Stop - não entrar"...




Rating: 0.0
Actividade em ionline