A presidência espanhola da União Europeia chega ao fim com poucos motivos de orgulho, depois de um semestre mergulhada na crise na zona euro e na sombra da nova arquitetura institucional criada pelo Tratado de Lisboa.
Quando, na próxima quarta feira, a Espanha entregar à Bélgica a presidência rotativa do bloco europeu, a memória que deixa é a de uma liderança apagada e até mesmo embaraçada, já que Madrid foi figura secundária na resposta à grave crise que se abateu sobre o euro (atrás do novo presidente do Conselho Europeu e das grandes potências económicas, como Alemanha e França), mas figura central das inquietações quanto a um fenómeno de contágio da situação grega.
Em plena presidência da UE, a Espanha viu-se forçada – pelos países a que "presidia" – a adotar medidas radicais para acelerar a redução do seu elevado défice público (11,2 por cento em 2009), no meio de boatos sobre a possibilidade de Madrid se seguir a Atenas no recurso à ajuda europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Mas, da mesma forma que se pode queixar da crise que no primeiro semestre do ano atingiu com particular violência a zona euro, a Espanha também poderá lamentar ter sido a primeiro presidência rotativa a operar, lado a lado, com a nova figura de presidente do Conselho Europeu criada pelo Tratado de Lisboa, bem como com a nova Alta Representante da UE para a Política Externa.
Herman van Rompuy e Catherine Ashton tornaram-se os “rostos” da UE em matéria de cimeiras europeias e política externa, respetivamente, deixando muito pouco espaço, ou iniciativa, para o país que detém a presidência rotativa do Conselho. A Espanha foi a primeira “vítima” deste novo quadro institucional.
Também a nível de algumas das grandes apostas da presidência espanhola, como as relações externas, a Espanha pode queixar-se de falta de sorte.
A crise na zona euro monopolizou todas as atenções e deixou os 27 com pouca vontade de dar prioridade às relações com países terceiros. Por outro lado, Washington decidiu anular a cimeira UE-Estados Unidos, que levaria o presidente norte-americano, Barack Obama, a Madrid.
E até um dos mais ousados objetivos da presidência espanhola no plano diplomático, a tentativa de reaproximação a Cuba, foi minada pela morte do dissidente político Orlando Zapata, depois de uma greve de fome, que deitou por terra um desejo de José Luis Rodriguez Zapatero já de si difícil de alcançar, face às resistências da direita europeia.
Um dos poucos sucessos da liderança espanhola acabou por ser a recente cimeira UE-América Latina, em maio passado. No encontro foi alcançado um acordo de livre comércio com os países da América Central e foram relançadas as negociações com os países do MERCOSUL (Mercado Comum do Sul) com vista à celebração de idêntico acordo.
Muito pouco para seis meses e para um programa tão ambicioso como aquele que Madrid tinha à partida.
*** Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico ***




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