Criminalidade
Ela cigana, ele não. Tiros, agressões e medo por um amor impossível
por Augusto Freitas de Sousa, Publicado em 25 de Junho de 2010
Fugiram juntos num romance proibido. A família dele pagou a factura: casas e carros vandalizados, insultos e o receio de sair à rua
Com Lisboa como pano de fundo, um bairro social degradado no emaranhado dos realojamentos, imigração e raízes perdidas, foi o cenário de uma desavença que levou à destruição de apartamentos, agressões, ameaças de morte e queixas na PSP.
A história começa num bairro na zona das Olaias, com um rapaz de 20 anos que se perdeu de amores por uma jovem da família Cabral de 19 anos. A tradição despertou a ira da comunidade cigana. Os casamentos mistos nunca foram bem aceites e mesmo aqueles que os levaram adiante, é frequente serem votados ao ostracismo. Os jovens não aguentaram a pressão e fugiram para longe.
Na manhã de quarta-feira, alguns elementos da comunidade cigana queixavam-se ao i que a PSP tinha irrompido, cerca das sete da manhã, por algumas casas da família Cabral (cinco ou seis residências, não souberam precisar) e, entre alguns relatos, queixavam-se que um jovem foi agredido, apontaram a arma a um bebé de um ano e meio. Segundo eles, a fuga dos jovens e a rusga não têm "nada a ver uma com a outra".
A relação entre uma e outra história reside na acusação de coacção, que a PSP imputou a três elementos da comunidade. Foi a investigação das ameaças que levou os agentes da PSP a suspeitarem da existência de armas.
Os últimos dias de Maio e o início de Junho tornou-se, segundo os familiares do jovem, "um inferno". O nome de família bastou para serem agredidos na rua e insultados quando permaneciam nas suas casas. O facto das duas famílias viverem na mesma Rua Fábrica das Moagens, a principal do bairro, só piorou o conflito.
Um membro da família do jovem que se apaixonou contou ao i como tudo se passou - pediu para não ser identificado por receio de represálias. Recorda que vários membros seus familiares ainda estão fugidos ou refugiados em casas de amigos e família, "uma vez que estavam constantemente a ser ameaçados de morte. Durante estes dias, conta que os membros da família Cabral entraram em seis casas da sua família, "partiram tudo, levaram a roupa e queimaram-na". Explica, enquanto espreita pela pequena abertura dos cortinados, que durante um mês teve que se manter em casa com a mulher. Nem sequer podia sair para trabalhar.
As agressões, as casas destruídas, as ameaças de morte e, pelo menos, quatro automóveis vandalizados, deram origem a queixas apresentadas na PSP. Um dia, conta, pediu à polícia para o acompanhar a uma consulta. Como a resposta foi negativa, falhou a marcação.
Cerca de 15 dias depois da fuga amorosa, a rapariga soube das agressões aos familiares do namorado e decidiu voltar para tentar por um ponto final. A família levou-a para o Montijo, Setúbal, mas nada adiantou. Disse para quem quis ouvir que "aquele e só aquele era o homem da sua vida". Voltou a fugir e está com o amor da vida em parte incerta.
Fuga leva às armas Há muito que agentes das brigadas PSP estavam atentos quer às queixas, quer à possibilidade de existirem armas. Pouco passava das sete da manhã de quarta, quando elementos à civil das brigadas de investigação criminal da 5ª Divisão da PSP de Lisboa entraram em algumas casas da família Cabral e apreenderam três espingardas de caça, dois revólveres, uma pistola, uma pressão de ar, munições, um sabre turco e ainda 80 gramas de haxixe e duas de cocaína. As buscas decorreram no bairro e no Montijo.
Fontes policiais disseram ao i que, apesar da operação já ter dado frutos, a investigação ainda decorre. Confirmaram que vários elementos da família já tinham sido detidos anteriormente, com armas, mas o sentimento de impunidade tem provocado alguma frustração entre os investigadores.
Durante o dia de anteontem, dezenas de elementos da família Cabral estiveram junto às instalações da PSP. As queixas de agressões e uso desproporcionado de força durante a rusga matinal, fizeram-se ouvir por toda a rua da esquadra. Entre outras queixas, uma idosa garantia que um amigo da família que estava de passagem em casa deles, sofria do coração e esteve perto de ter um ataque quando a PSP entrou de rompante nas casas. Outro relato dava conta de uma residência que estava com a porta aberta e "acabaram por partir os vidros das traseiras".
Foram detidos três homens, com idades entre os 27 e os 31 anos de idade, pelos crimes de posse de armas, tráfico de estupefacientes e coacção.
O i apurou que o assunto do jovem casal não tem sido falado nos últimos dias, mas a família ainda circula com receio.
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