Entrevista
"Sócrates proibiu a palavra corrupto na entrevista à RTP"
Publicado em 30 de Maio de 2009
O seu telejornal é o mais visto do país. Tem um estilo duro e directo: diz que gosta de roer as canelas ao poder
"Fico com pena por toda a equipa que faz o Jornal Nacional de sexta-feira". Esta frase resume o estado de espírito com que Manuela Moura Guedes nos recebeu perante o ataque cerrado de que tem sido alvo. "Às vezes" apetece-lhe desistir, mas mantém durante toda a entrevista a atitude de desafio que a leva a contra-atacar contra o Governo, o primeiro-ministro José Sócrates, o bastonário dos Advogados Marinho Pinto e a entidade reguladora da comunicação social (ERC). Muitos jornalistas também não escapam, incluindo Judite de Sousa e José Alberto de Carvalho ou o director do Diário de Notícias, João Marcelino, a quem acusa de se submeterem ao poder. Já ela, acrescenta a própria, limita-se a fazer jornalismo, o que implica "roer as canelas ao poder". "Não ando aqui num campeonato de simpatia" - avisa.
Que resposta tem à condenação que recebeu da entidade reguladora?
Portugal bateu no fundo em termos de liberdade de informação. Houve pressões e a ERC teve de agir. A voz do dono foi mais forte.
Não aceita que o "Jornal Nacional" possa violar as regras do jornalismo?
Como é que se pode falar em falta de isenção quando os ditos "objectos de notícia" se recusam a falar connosco, seja em reportagens ou entrevistas? A culpa não é nossa, eles é que recusam falar. Acho inconcebível que se acuse alguém de falta de rigor quando todas - mas todas! -, as peças emitidas pela TVI são feitas com base em documentos. Aliás, pelo que percebo da votação no Conselho Regulador, houve quatro votos a favor e um contra. E esse voto contra terá sido de uma pessoa indigitada pelo PSD. Fica tudo dito?
No seu entender, esta avaliação da ERC não tinha razão de ser?
Espero que a ERC também avalie outras queixas públicas sobre outros jornais. Especialmente o Telejornal da RTP1, com tantas críticas sobre a sua governamentalização. Não há qualquer regra em que tenhamos falhado. Cumprimos com todo o rigor em tudo o que emitimos. É tudo com base em documentos e quando não há provas, as peças não vão para o ar. Tanto que não há desmentidos. O que há é este "bruá" de críticas atiradas para o ar. Diz-se: "este jornal é contra a ética". Mas qual ética? Quais são as regras que não cumprimos?
A ERC diz que mistura opinião com informação e muita gente critica a forma como remata ou lança as peças, o tom com que faz observações...
Por amor de Deus: é ridículo dizer que aquilo é opinião. O que eu faço é rematar as peças. Mas já agora, porque não fazem a mesma crítica a outros telejornais quando os pivots vêem mulheres engraçadas nas peças e, no final, fazem olhares libidinosos, quase a tocar o obsceno? Isso não pode ser considerado comentário? A diferença é que não fazem isso com a informação política.
O bastonário Marinho Pinto também lhe disse que o seu jornalismo é pouco sério.
Há pessoas a quem reconheço legitimidade para porem em causa o meu trabalho. Há outras em quem eu vejo outras razões para publicamente dizerem isto ou aquilo sobre o meu trabalho. Sentem--se incomodadas? É normal!
Já digeriu o ataque que o primeiro-ministro fez ao seu "Jornal Nacional"?
Não é uma questão de digestão. Achei que não era possível. Mas há tanta coisa que eu achava que era impossível e afinal acontece. Esta é apenas mais uma?
Há quem diga que este governo lida mal com os media. Concorda?
Este governo lida mal com a liberdade de informação. Mas a culpa é dos jornalistas. Se o governo estivesse habituado a uma comunicação social mais contundente, directa e que o confrontasse mais, ou seja, se a comunicação social fosse aquilo que devia ser, talvez o governo não apontasse o dedo a quem se limita a fazer jornalismo. Nós não fazemos mais nada além disso: fazemos investigação, mostramos casos que devem ser mostrados à opinião pública, fazemos aquilo que é normal fazer em qualquer país.
A emissão do DVD que envolvia José Sócrates no caso Freeport também cumpriu todas as regras deontológicas? A ERC diz que pode ter sido posta em causa a presunção de inocência.
Qual foi a regra que não cumprimos? Aliás, aponte-me um país - democrático, claro! - em que a comunicação social não emitisse esse DVD.
Quando o DVD foi emitido, a TVI não sabia que o arguido Charles Smith já teria desmentido às autoridades inglesas o que é dito nesse vídeo?
Charles Smith nunca desmentiu. O que disse foi que não tinha utilizado adjectivos insultuosos. Isso é subjectivo. Se corrupto não é insultuoso...
O que sente quando a envolvem em "campanhas negras"?
Acho engraçada a estratégia do governo. Estive dois anos e meio sem apresentar o "Jornal Nacional" e tem alguma graça ver que a estratégia do governo, na altura em que reapareci, passou por tentarem não dar importância a este jornal. Convidei ministros e o primeiro-ministro e descobri essa estratégia: ninguém aceitou os convites.
Tem justificação para essa recusa sistemática dos membros do governo?
Não sou eu que tenho de dar justificação. Percebo que é uma tentativa de não dar importância ao "Jornal Nacional" e é isso que torna engraçado ver, que depois se vira o bico ao prego. Porque ao fim de quase um ano, acaba por ser o próprio governo a dar esta importância ao "Jornal Nacional", apontando-o como o causador de todos os males. Nós somos "os autores da campanha negra", movemos "forças obscuras". É ridículo! Seria divertido, se não fosse muito triste.
A ausência da televisão durante dois anos resultou de um processo político?
Eram accionistas novos, que não conheciam o país.
Mas eram accionistas de quem se diz serem próximos do PSOE espanhol.
Sim, mas devem ter sido mal aconselhados quando chegaram cá.
Mas esse processo esteve na origem da relação tensa que há entre o governo e a direcção de informação da TVI?
Não faço ideia.
Nunca sofreu pressões da administração da Prisa? Ou recados, sugestões?
Os jornalistas não têm de lidar com a administração da empresa.
E é pressionada pelo poder político?
Há muitos anos que não falo com o poder político.
Incomodar o poder é uma das características do "Jornal Nacional" que apresenta?
Não fazemos as peças para criar incómodos ao poder. Enfim, os jornalistas têm de ser contrapoder. Faz parte! Temos de estar sempre lá, cuscar, roer as canelas, porque isso faz parte do jornalismo. Quanto mais responsabilidade tem um político, mais nós temos de estar atentos. Quem não pensa assim, está mal no jornalismo. Não é o "bota abaixo". É o alertar, pedir contas, desmontar a mensagem política. Eles [governantes] vão para lá e já sabem que isto tem de acontecer. Nós não podemos ser um eco, temos de ser o descodificador. Quem faz o contrário está errado e os políticos que não o entendam também.
Há quem diga que faz oposição ao governo...
Isso é uma estupidez. Se calhar é porque há ausência de oposição política. Mas esse tipo de opiniões só surge porque há uma ausência de tudo o mais. Se são relatados casos em que a política de gestão do país está mal, é-se logo encarado como oposição. Mas nós relatamos factos. Fico furiosa quando me dizem isso de fazermos oposição.
A RTP está governamentalizada?
É tutelada pelo governo. Viu a entrevista ao primeiro-ministro?
Vi.
Por amor de Deus, aquilo foi um monólogo! Mas também não estava à espera de ser esclarecida sobre alguma coisa naquela entrevista, com Sócrates a metê-los na ordem.
Mas o primeiro-ministro até reagiu mal a perguntas da Judite de Sousa?
Pois, quando havia alguma tentativa de introduzir temas mais desconfortáveis.
O tema do DVD do caso Freeport, emitido pela TVI, foi abordado.
Não, não!... Ele não deixou que a palavra corrupto fosse posta ali. Não deixou, não sei se reparou. Era uma palavra que estava proibida. E Judite de Sousa foi logo posta na ordem. O outro nem valia a pena. Estava ali só a sorrir?
Disse uma vez que tinha vergonha da classe em que se inseria. Continua a ter vergonha dos jornalistas?
Tenho.
O que é que a leva a sentir isso?
O cinzentismo e o aceitar tudo. O senhor primeiro-ministro nunca diria o que disse na entrevista à RTP, se o jornalismo que se praticasse em Portugal fosse outro. Acha que apontava o dedo a um Jornal que nunca desmentiu, se houvesse mais jornais a investigar, a chamar as coisas pelos nomes, a ir ao fundo das coisas? Não.
O nosso jornalismo tem receio do poder?
Vejo muito pouca gente com a paixão do jornalismo. As levas de gente que saem dos cursos de comunicação são pessoas com muitas regras na cabeça, mas não têm a "pica" pela investigação. Ficam sentados à espera que as coisas lhes surjam. São raros os jornalistas que ficam com um brilhozinho nos olhos com uma história qualquer.
Acha que vivemos submersos em propaganda política e que isso também complica a vida aos jornalistas?
Complica como? Se não fizerem eco de tanta propaganda, não complica. Quantas vezes é que o governo apresenta as mesmas coisas? Ora, se os jornalistas, em vez de estarem a fazer eco como se aquilo fosse novidade, tivessem outra postura, tudo seria diferente. A culpa é nossa. Por isso é que me envergonho da nossa classe. Envergonha-me, que um director de um jornal [do DN, João Marcelino] escreva um editorial a perguntar como é que a ERC ainda não se pronunciou sobre "o Jornal Nacional de sexta-feira, que bate no primeiro-ministro".
A Manuela Moura Guedes desperta paixões e ódios. Cultiva isso?
Não cultivo nada. Como jornalista, não ando aqui num campeonato de simpatia, nem faço nada para despertar essas sensações nas pessoas. Levo a sério o jornalismo e não sou indiferente às coisas. Quando me dizem que temos de ser neutrais. Enfim, ninguém é neutral. Há determinadas coisas em que qualquer pessoa de bem toma partido. Estou sempre do lado da vítima, do lado dos indefesos. Nem outra coisa me passa pela cabeça. Se querem neutralidade no pivot de um noticiário mais vale passarmos a ter autómatos a apresentar notícias.
Não se corre o risco de resvalar para um jornalismo justiceiro?
A palavra "justiceiro" tem conotação pejorativa. Mas, ao relatar casos, todos estamos à espera que se faça justiça. Quando estamos a fazer uma história, a contar todos os lados dessa história e sabemos que há ali qualquer coisa que está mal, esperamos sempre que o puzzle se componha para o lado da justiça.
O que acha da violação sistemática do segredo de justiça, que sustenta grande parte da investigação jornalística?
O segredo de justiça não foi criado pelo cidadão comum, pois não? Não. Porque nenhum jornalista quer saber sobre casos do cidadão comum. O jornalista quer é saber coisas sobre casos de corrupção, crimes económicos ou os segredinhos que depois são arquivados. E o segredo de justiça foi criado e aprovado para que em nada se toque e nada se saiba.
Mas não é suposto essa informação não ser pública, para garantir o bom funcionamento do sistema judicial?
Sou sempre pela boa intenção do legislador, tendo em conta que aquilo é para defesa do político e que é o político quem legisla... Não há nada que se pareça com o segredo de justiça em Portugal. Tudo é segredo de justiça, não se pode tocar em nada. Só se pode saber quando os casos são arquivados pelo Ministério Público. E depois, quando o jornalista pede para ver o caso já arquivado, vai descobrir muitas vezes que nem os arguidos foram ouvidos. Em muitos casos a violação do segredo de justiça atinge um objectivo, que é servir um bem maior: a opinião pública.
A quebra do sigilo é legítima?
É óbvio que há pormenores que não podem ser divulgados, para defesa do bom nome das pessoas, que são inocentes até trânsito da sentença em julgado. Mas estamos a falar do desempenho de cargos públicos, de eleição, casos em que as pessoas sabem que quando escolhem aquele caminho têm de ser escrutinadas quase diariamente. Não podem esconder-se atrás do segredo de justiça.
Acha que a polémica em torno do "Jornal Nacional" da TVI, bem como a avaliação da ERC, ou as críticas do governo, são uma tentativa de silenciá-la?
Claro que sim. Aquele congresso do PS foi uma forma de pressão. O PS quer silenciar-me. Confesso que sinto uma tristeza enorme por isso.
Já sentiu vontade de desistir?
Às vezes, porque fico com pena. Faço as coisas genuinamente, toda a equipa o faz. Levamos o jornalismo da forma mais séria e rigorosa possível. É um jornal feito com todo o rigor. O estilo de apresentação é o meu, mas não se deve confundir nunca o estilo com o conteúdo. Pôr em causa o trabalho de toda esta gente por motivos políticos é a coisa mais vergonhosa.
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