Opinião

Ser de esquerda, hoje

por Helena Roseta, Publicado em 30 de Maio de 2009   
Ser de esquerda hoje significa não se acomodar perante a injustiça e a desigualdade. A imigração é um direito
Opções
a- / a+

Uma das clivagens sempre invocadas para distinguir esquerda e direita é o facto de a direita defender o mercado e a esquerda defender o Estado. Com o neo-liberalismo predominante nos últimos vinte anos, defender o Estado tornou-se no entanto um anacronismo, a ponto de ter havido quem identificasse estes tempos com "o fim da história".

O actual colapso financeiro e económico voltou a trazer expressões como "nacionalização da banca" e "intervenção do Estado" para a agenda política. Todos constatam que os mecanismos de desregulação apregoados pelo "pensamento único" conduziram ao desastre. A esquerda está pois de volta e em força, pelo menos aparentemente. Mas será que aprendemos a lição?

Hoje, mais importante do que saber o que é que o Estado detém é saber quem detém o Estado. Ora a globalização trouxe consigo um grande desequilíbrio entre os poderes financeiro e económico, de escala planetária, e os poderes políticos, de escala nacional ou, quando muito, regional, como na União Europeia. Este desequilíbrio reflecte-se na desproporção entre o poder de decisão dos governos e o dos grandes grupos financeiros económicos multinacionais. Reféns de estratégias globais não validadas democraticamente, os governos europeus, mesmo quando eleitos à esquerda, têm claudicado, até na linguagem.

Entre nós o caso agravou-se com a dimensão quase paroquial da política portuguesa.

As promiscuidades entre ex-governantes e interesses económicos são escandalosas. Os poderes reguladores parecem impotentes. A grande corrupção alastra impunemente. O dinheiro dos contribuintes acode mais depressa aos buracos imensos do sistema bancário do que às dificuldades e ao desespero dos mais pobres. A crise aqui já não é conjuntural: é estrutural e moral.

Ser de esquerda hoje, como sempre, significa não se acomodar perante a injustiça e a desigualdade. A precariedade é o novo nome da exploração. A pobreza não é inevitável. A imigração não é um perigo, é um direito. A nossa solidariedade tem de ser concreta e quotidiana.

Ser de esquerda hoje é não aceitar o "pecado organizado" de que falava Sophia de Mello Breyner. É não cair na tentação do conformismo, do abuso, da instalação nas pequenas ou grandes mordomias a que o poder pode dar acesso. É praticar a austeridade republicana, coisa mal vista num tempo de consumismo desenfreado. É compreender que não há liberdade sem liberdades. A liberdade económica, tão cara à direita, não pode sobrepor-se à liberdade política e aos direitos sociais, culturais e ambientais que a "Constituição" consagra.

Ser de esquerda hoje é acreditar nos novos modos de intervenção e participação dos cidadãos. É não ter medo das mudanças sociais, da criatividade e da inovação. É procurar todos os dias, no meio das dificuldades e desilusões, o novo sentido do nosso combate de sempre: mais liberdade, mais justiça, mais solidariedade, mais e melhor cidadania.

 

Arquitecta, vereadora da lista Cidadãos por Lisboa da Câmara Municipal de Lisboa



Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close