PRIMEIRO PLANO
Como ser patriota
por Paulo Tunhas, Publicado em 23 de Junho de 2010
O patriotismo não é originariamente afectivo, é cognitivo. O amor, feliz ou infeliz, aparece por causa do conhecimento
Nestes dias de crise e futebol, fui ver na literatura que tipos desse misterioso sentimento que a equívoca palavra "patriotismo" designa se encontram no mercado, para ver se algum me servia. A tarefa é delicada, até porque com esta coisa da Europa os nossos pastores nos pedem simultaneamente para sermos patriotas e para não sermos. A não ser que acreditem mesmo que algo como um "patriotismo europeu" é coisa possível, e que, sendo-o, é compatível com o outro.
No catálogo dos patriotismos, declaram os eruditos, há várias espécies, todas elas definidas como formas de amor. Há, por exemplo, o patriotismo robusto, que acredita que tudo devemos à pátria, sacrifício e completa identificação com ela. A parcialidade é de regra: não há mais belo país do que o nosso, nem melhor gente do que a nossa. Não parece, no entanto, uma solução muito agradável. Há muitas coisas que não se recomendam em Portugal e nos portugueses e não se vê como poderiam elas suscitar um amor imoderado. Foram elas que nos formaram, misturadas com as outras mais apreciáveis? Pois foram, mas formaram-nos mal, e paga-se isso caro a vida inteira.
Há, no entanto, formas menos inflacionadas de patriotismo, que permitem alguma imparcialidade, pondo distância nos afectos. Há amor e identificação à mesma, mas estamos dispensados, por exemplo, de chorar com o "Ai Timor"ou de achar muita graça à fealdade que tomou conta da paisagem. O problema com o patriotismo moderado - quase um oximoro - é que não há propriamente harmonia pré--estabelecida entre os afectos e a racionalidade (a tal imparcialidade), o que leva a oscilações cíclicas na nossa relação com a pátria. Num dia perdoa-se, noutro não, e assim por diante. É chato.
Resta que a alternativa teórica a um qualquer patriotismo é o cosmopolitismo, que, quaisquer que sejam os seus méritos, acaba sempre por conter uma boa dose de artificialidade. É que a língua puxa-nos uns para os outros, tal como os costumes, e torna-nos as coisas de cá de casa mais compreensíveis do que as de lá fora. Percebemos melhor Pessoa do que Eliot, Sócrates do que Berlusconi. E não nos encontramos dispostos a abdicar dessa compreensão privilegiada. Não queremos que a pequena espécie cultural à qual pertencemos deixe de existir, porque, de uma certa forma, a nossa identidade está inscrita nela: somos o que conhecemos. No fundo, o patriotismo existe porque as pessoas percebem melhor um objecto, o seu país, do que os objectos, os países, dos outros. Não tem a ver, directamente, com amor: tem a ver com o conhecimento, um conhecimento largamente involuntário. Os afectos, bons ou maus, vêm daí. Não são originários.
Professor do Departamento de
Filosofia da Universidade do Porto
Escreve à quarta-feira
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