visto de fora

O relativismo cultural ajuda a sociedade multiétnica

por Francesco Alberoni, Publicado em 22 de Junho de 2010   
A chegada de uma legião de emigrantes assusta alguns que temem uma dissolução dos nossos costumes. No entanto, os que chegam vão-se integrando e os de cá acolhem-nos bem
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Para alguns, a civilização ocidental está a decompor-se e um dos sinais mais evidentes deste processo é a mistura de povos e o desaparecimento de um sistema de valores único - o relativismo cultural -, razão pela qual as pessoas, desprovidas de um código ético, perdem o critério que distingue o bem do mal e, livres para fazerem o que quiserem, entregam-se a excessos e desregramentos. Segundo esta tese, o enfraquecimento do nosso sistema de valores vai impossibilitar a integração de emigrantes vindos de todo o mundo. É certo que os perigos são muitos. Pelo menos em Itália assistimos a uma deturpação da moral política, pública e privada. No caso de muitos jovens, e sobretudo de muitas jovens, é como se nunca tivessem aprendido o que é o autodomínio nem soubessem o que é um objectivo.

Salvo raras excepções, os grandes partidos históricos, depois de terem perdido ideologias e convicções, deixaram de estar em condições de dar formação política e moral aos próprios filiados e de travar interesses pessoais. Alguns vícios são, na realidade, tradicionais. Em Itália sempre houve litígios políticos. Basta recordar que Dante viveu sempre no exílio por ter sido condenado à morte pelos malévolos concidadãos. Por sorte, no extremo oposto houve sempre um determinado grau de laxismo, de condescendência, de piedade, tanto em comportamentos públicos como privados, algo que, hoje também, pode representar alguma vantagem. De um modo geral, o povo italiano é conciliador e tolerante, acolhe facilmente aqueles que são diferentes, os estrangeiros, dá-lhes espaço e adapta-se. Na televisão vemos desfilar patifes, heróis, cientistas, acompanhantes, membros de todas as etnias, com todas as opções sexuais, vemos traições, divórcios geridos com bonomia, tolerância. Há uma espécie de "relativismo cultural" popularucho que, embora podendo favorecer a corrupção e até a delinquência, contribui para suavizar os conflitos numa sociedade agora multiétnica, multirreligiosa e também com fortes correntes de ateísmo militante.

É como se procurássemos uma espécie de menor denominador comum de pura compreensão, de pura simpatia humana. É por essa razão que - se a emigração continuar sob controlo em termos numéricos - os emigrantes vão inserir-se sem demasiados conflitos no nosso tecido cultural, exactamente porque privilegiamos as relações emocionais e os princípios humanos e não tentamos impor um sistema rígido de valores.

Sociólogo e jornalista


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