EDITORIAL
Portajar as Scut é um assunto sério
por Manuel Queiroz , Publicado em 22 de Junho de 2010
Estaremos à beira de uma revolta no Norte por causa das Scut como diz Rui Rio? Tenho dúvidas, mas o assunto é sério
Estaremos à beira de uma nova revolta do Norte? De uma Maria da Fonte contra Costa Cabral que a meio do séc. XIX quis impor novos impostos e levou com os protestos iniciados no Minho?
O alerta é de Rui Rio: "Este tratamento discriminatório é, em minha opinião e pela leitura política que eu faço, muito perigoso para o governo. Estamos à beira de as pessoas se poderem revoltar a sério e com razão", disse ontem o presidente da câmara e da Junta Metropolitana do Porto.
Já estamos numa fase em que muitos aceitam que se deve - ou que se tem de - pagar nas auto-estradas Scut. Já só querem que o tratamento seja igual para todo o país.
Isto parece - e é - justo. Já aqui o escrevi: as razões pelas quais não se aplicam para já as portagens na algarvia Via do Infante serviriam para não se pagar também em nenhuma das concessões nortenhas. O governo anunciou, entretanto, um novo estudo para se pagar portagens em todas as auto-estradas, mas de tal forma que dá toda a ideia de uma resposta pífia e da 25.a hora à contestação popular e partidária.
Pelo que se sabe, a oposição prepara-se para chumbar na Assembleia da República a obrigatoriedade dos chips, o que aparentemente põe em causa todo o edifício legislativo. Uma das primeiras iniciativas do PSD desta legislatura, assinada aliás - e apenas - por aquele que é agora o líder parlamentar (Miguel Macedo) foi precisamente uma proposta para revogar a introdução obrigatória dos chips porque põem em causa a privacidade das pessoas. E é Miguel Macedo quem está a negociar com o governo esta lei, que é um assunto sério porque é uma das medidas que está no Programa de Estabilidade e Crescimento. E pode demonstrar, aos famosos mercados e a tudo o resto, incluindo a União Europeia, se o governo tem ou não tem autoridade para aplicar o plano com que se comprometeu para sanear as finanças públicas.
Veremos o que se passa até quinta-feira nos contactos que o governo tem mantido com alguns partidos, nomeadamente os social-democratas. O PSD defende também, desde há muito, que deve haver discriminação positiva para as pessoas e empresas residentes nas zonas afectadas, uma medida que de qualquer forma deveria ter também um prazo, acho eu.
Há aqui várias coisas: Rio quer que paguem todos, o PCP não quer que ninguém pague, o PSD é contra os chips e a favor da discriminação positiva. Contestação variada, como se vê.
É indiscutível que a crise económica e social é muito maior a Norte do que a Sul do país e há sinais de muito nervosismo - a fusão institucional da CIP, da AIP e da AEP, formalizada ontem no Porto, chegou a ser discutida de forma quente na região nortenha há alguns meses, por poder significar perda de independência da maior associação empresarial do país.
Para já, parece-me um pouco alarmista a declaração de Rui Rio. Mas às vezes basta um pequeno rastilho para acender uma guerra.
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