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Elas não gostam mesmo dela

por FIlipe Duarte Santos, Publicado em 29 de Maio de 2009   
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Confrontos entre Portugal e França dão molho. Tivemos Marc Batta em 1997, Zidane e o eslovaco emprestado Igor Sramka em 2000 e novamente Zidane e Raymond Domenech em 2006. Desde que levaram para trás durante as (frustradas) invasões francesas que o povo lusitano parece ter um karma negativo relativamente aos franceses.

Esta manhã, foi Michelle Larcher de Brito a sofrer na pele a elevada sensibilidade dos franceses. Aravane Rezai não deve ter dormido a pensar na manhã de sono que ia ter. Com Mauresmo de fora, estava na lista da frente para prolongar o sonho francês na terra batida de Roland Garros. Mais do que isso, ia abrir a jornada no principal estádio do recinto parisiense. Ainda mais do que isso, jogava com uma desconhecida portuguesa radicada nos Estados Unidos de 16 anos.

Michelle Larcher de Brito tinha avisado na véspera que há muitas jogadoras no circuito que não gostam dela. Para Rezai seria, muito provavelmente, indiferente até esta manhã se ter atravessado num caminho imaginado para a glória. A festa da primeira quebra de serviço terá feito pensar que a vitória estava já ali, especialmente depois de já ter batido Michelle anteriormente sem dificuldades. Mas não. A portuguesa retribuiu logo de seguida e levou Rezai a fazer uma autêntica birra de "it's my party and I cry if I want to" [é a minha festa e choro se quiser]. A perder por 3-4 e a ver a vida andar para trás, Rezai fez "queixinhas" dos gritos de Michelle. O árbitro não ligou e a francesa, que como todos os franceses está habituada a recorrer às mais altas instâncias, pediu para falar com a supervisora. "Os gritos dela estão a perturbar-me".

Durante os dois jogos seguintes tudo ficou na mesma, mas ao 5-4, a favor da portuguesa, o árbitro finalmente pediu a Michelle para controlar os berros. A pedido da supervisora. Esse momento mudou o jogo. A tenista de 16 anos estava onde queria, a jogar de igual para igual num Grand Slam profissional e a discutir o apuramento para os oitavos-de-final. Ali, naquele momento da advertência, Michelle foi obrigada a lembrar-se que tem 16 anos e de todas as condicionantes que isso tem. Nesse momento, sentiu que havia tratamento diferenciado, sentiu a protecção a Rezai e sentiu que se fosse qualquer outra tenista, com uma presença consolidada na elite feminina, nunca isso seria pedido. Claramente revoltada, soltou uma comparação com Maria Sharapova.

Voltou para campo agitada e perdeu os dois jogos seguintes. Ainda conseguiu levar o primeiro set para ao tiebreak mas não teve capacidade para o vencer.

A Michelle confiante, determinada e segura de si mesmo desapareceu e deu lugar à Michelle nervosa, com erros infantis e extremamente irregular. O segundo set pouco passou de uma formalidade para Rezai cumprir um sonho de uma noite de primavera. Ainda assim, Michelle Larcher de Brito deu mais um sinal da injustiça que sentia e da arrogância e acto de menina mimada que Rezai tinha tido: "É engraçado ter-se queixado quando estava a perder e agora, que está a ganhar, não tem nada a dizer. É uma coincidência muito estranha".

O público francês virou-se contra Michelle e começou a assobiá-la, especialmente depois de Michelle ter cumprimentado Rezai no final do jogo de forma desinteressada e quase obrigada a isso. Rezai fez de "santa" e abanou a cabeça em sinal de reprovação. Afinal de contas, o que interessava já estava feito. Agora poderia voltar a ser a tenista profissional e correcta.

Já Michelle saiu de cabeça erguida, agradecendo ao público apesar dos assobios. No dia 8 de Junho, estará seguramente no top 100. Daqui a três ou quatro meses estará ainda melhor. Possivelmente, daqui a um ano, estará ainda melhor e Rezai não será mais do que uma tenista francesa perdida no ranking sem destaque. Estranha coincidência seria Rezai tornar-se espectadora e fazer tudo para chamar a atenção da melhor tenista portuguesa (que muitos dizem poder chegar, pelo menos, ao top-20) dentro de campo. Pode ser que aí seja Michelle a pedir, educadamente, ao árbitro para acalmar os espectadores. Pode ser...



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