Livros
Corrida às livrarias em busca de José Saramago
por Vanda Marques , Publicado em 22 de Junho de 2010
Durante o fim-de-semana a Fnac teve um aumento de 800% na venda de livros do escritor. Homenagem ou curiosidade, as livrarias tiveram de renovar os stocks
"Depois de Camões, Saramago foi o maior escritor de todos os tempos", dizia um cliente na livraria Lello & Irmãos do Porto. Não levava "Caim" ou "Memorial do Convento" debaixo do braço, mas fez questão de dizer a Jorge Mendes, que trabalha na livraria histórica, o que achava do Nobel. Terá sido um dos poucos clientes que não levou um livro do autor. Mas deixou o comentário em jeito de homenagem.
Desde sexta-feira, dia da morte de José Saramago, que a procura dos livros do autor aumentou. Às 16 horas, de dia 18, já as grandes superfícies, como o Jumbo, tinham uma banca com a obra do autor em destaque.
Na livraria Lello e Irmãos não foi preciso uma banquinha especial. Turistas estrangeiros, fãs da obra de Saramago ou curiosos não se esqueceram de passar por lá. "Caim" e "O Ano da Morte de Ricardo Reis" foram os mais vendidos, revela o livreiro da Lello & Irmãos. "Saramago sempre foi um dos autores mais procurados, mas em três dias vendemos 30 livros do autor, incluindo traduções", diz Jorge Mendes ao i.
A Fnac também registou um aumento e teve de renovar os stocks. "Tivemos um aumento de 846%, uma proporção que mostra bem a loucura da procura", explica Viriato Filipe, do departamento de Marketing da Fnac. O que isso significa em números fica no mistério dos deuses, pois a empresa não pode revelar esses dados. "No sábado e domingo foi quando tivemos um aumento das vendas. As pessoas querem completar a colecção ou quem nunca comprou um livro do autor fica com curiosidade", explica o responsável. No dia da morte, a Fnac fez um cartaz com uma homenagem ao escritor e ajudou a relembrar os "mais esquecidos". "Caim", "Viagem do Elefante" e "Memorial do Convento" foram os mais vendidos.
A livraria Bulhosa também teve mais clientes à procura dos livros de Saramago e a Bertrand registou "cinco vezes mais vendas do que o normal", como revelou Marta Cunha Serra. A Almedina, com livrarias espalhadas por todo o país, foi outra cadeia a registar o fenómeno. A cidade com mais vendas foi Lisboa, seguida de Gaia e Coimbra. "Este fim de semana verificou-se uma procura dos títulos do autor como já não se verificava há algum tempo. Pensamos que nas próximas semanas as vendas serão consideráveis. Vamos ter um espaço dedicado à obra do autor a partir desta semana", diz Carolina Santiago da Almedina.
Mesmo nas lojas mais pequenas, como a Pó dos Livros, em Lisboa, os clientes não se ficaram pela montra. "Não me pediam indicações, sabiam bem que livros queriam comprar. Passam-se dias, semanas, sem se venderem livros de Saramago, desde sexta-feira vendemos seis. As pessoas são sempre mais lembradas depois de morrerem, diz Carlos Loureiro.
inédito Aos 46 livros de Saramago que enchem as prateleiras das lojas pode juntar-se outro. O escritor deixou páginas inéditas do que seria o seu próximo romance. José Saramago não o terminou e a Editora Caminho ainda não sabe quando e se vai publicar o livro. Cabe à mulher do autor, Pilar del Rio, decidir o que fazer com as 30 páginas deixadas por Saramago que seriam uma obra sobre a violência da guerra.
Enquanto essa questão não se resolve e para recordar a herança do Nobel, a Casa Fernando Pessoa organiza uma leitura integral de "O Ano da Morte de Ricardo Reis", na próxima sexta-feira, às 12h.
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