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"Work of Art": Descobrir o novo Picasso, ao estilo do "Project Runway" - vídeo

Publicado em 22 de Junho de 2010   
Um reality show que vai dar 80 mil euros e uma exposição ao melhor artista da televisão americana
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Se um banqueiro que concedeu empréstimos irresponsáveis durante o boom da compra de casas enviasse agora a cada cliente um pequeno cheque para juntar ao pé de meia, o gesto iria parecer-se muito com "Work of Art: The Next Great Artist", um acto de reparação por causa dos pecados anteriores da reality TV. A série (que estreou recentemente nos EUA) submete os praticantes das belas artes às competições de gladiador da cultura popular, dando a pintores, escultores e fotógrafos uma amostra da celebridade de que, hoje em dia, gozam tantos profissionais de serviços e donas de casa ociosas de Orange County. É como se a televisão por cabo subsidiasse as artes.

A comparação faz com que "Work of Art" pareça vagamente entediante, coisa que, decididamente, não é. A série põe 14 pessoas criativas em competição uns com os outros e coloca-lhes pela frente os desafios obrigatórios que magoam e banem os que não merecem. Podemos dizer que isto sujeita potenciais visionários e idealistas culturais ao mercantilismo grosseiro de "Shear Genius", ou podemos, mais generosamente, fazer a analogia do projecto com as tradições do antigo regime. Tendo começado durante o reino de Luís XIV, o Prix de Rome granjeava dinheiro e prestígio aos artistas que provassem o seu valor através de um concurso com algumas semelhanças com este novo. A única diferença: o processo nunca foi exibido em segmentos de uma hora depois do "Top Chef Masters".

"Work of Art" tem Sarah Jessica Parker como produtora executiva. O vencedor recebe 100 mil dólares (cerca de 80 mil euros) e uma exposição individual no Museu de Brooklyn. De imediato, o participante que você nunca quererá ver a menos de três quilómetros de distância da Eastern Parkway (onde fica o atelier do concurso) é Nao Bustamante, uma artista de performance e vídeo politicamente exibicionista. "Eu sei o que estão a pensar", diz à assistência enquanto se apresenta. "Talvez a Nao seja demasiado consagrada para este programa."

Bustamante é irmã de Cruz Bustamante, antigo vice-governador da Califórnia. Numa peça que criou no início dos anos 1990, indicou aos homens brancos na assistência que pedissem desculpa pela opressão sobre o povos indígenas enquanto mastigava um burrito que tinha preso à anca (quando se faz uma performance com um burrito, usa-se feijão preto ou encarnado? Dá que pensar). Apareceu na televisão ao lado de Joan Rivers. Apesar da ideia que ela faz da sua própria fama, nada disto será do conhecimento das legiões de espectadores que não consultem primeiro a sua página na Wikipedia.

Mesmo sem tentar, "Work of Art" ressuscita os debates académicos dos anos 1980 e 90 já que, implicitamente, pede-nos que determinemos qual o tipo de arte que tem mais valor. A série é um combate (uma coisa boa) que coloca artistas figurativos contra artistas conceptuais e por aí adiante. Aqui temos um convite para que a gritaria sobre Derrida comece. Mas isto é a Bravo TV, não a Ovation, e o júri oferece as suas opiniões sem qualquer indicação de interesses óbvios.

O crítico de arte Jerry Saltz é o mais empenhado e iluminado dos membros do júri (e juro que não fui inspirada para gostar mais dele do que dos outros apenas porque ele é o marido da minha colega Roberta Smith, crítica de arte do New York Times). A galerista e socialite Jeanne Greenberg Rohatyn é a que tem melhor aspecto, pelo que nos importamos menos do que devíamos quando ela se sai com avaliações vazias como "não há desculpa para uma má pintura."

"Work of Art" ficaria muito melhor servido se tivesse Robert Hughes - o carismático estripador de Julian Schnabel e tantos outros - quer como membro do júri ou no papel de conselheiro que Tim Gunn tem em "Project Runway". Aqui, o cargo é ocupado por um leiloeiro chamado Simon de Pury, presidente de uma casa leiloeira conhecida pela venda de artistas contemporâneos e uma presença agradável no seu fato com duas fileiras de botões, que se comporta como um maitre d'hotel muito apreciado ("A minha abordagem à arte é puramente física", explica. "Normalmente, sei logo no espaço de um segundo se é ou não uma grande obra").

Não é claro que China Chow, filha do empresário de restauração Michael Chow e apresentadora do programa, seja capaz de respostas tão viscerais. Ela é uma presença apagada e largamente ignorada até aos instantes finais, quando é chamada a dizer a frase de despedimento: "Your work of art didn't work for us." ("A sua obra de arte não funciona para nós".) Ainda assim, "Work of Art" funciona.


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