Música
"Vai uma mine?" Depressa que o baile vai começar - vídeo
Publicado em 22 de Junho de 2010
João Gil e João Monge estão de volta. Baile Popular é um regresso às origens do canto tradicional e mistura músicos de jazz com um quarteto de vozes alentejano
Tudo começou com um telefonema, no Inverno de 2008: "Estou, João? Tens um minuto para mim? Estava a pensar em fazer um projecto de música tradicional. Alinhas? Óptimo, xau." Foi assim, sem palavras de introdução ou conversas demasiado ponderadas e alongadas que começou a desenhar-se o Baile Popular. João Monge e João Gil andam nisto há muitos anos para saber que os melhores discos surgem da forma mais espontânea. Depois do mega-sucesso que foi o projecto Rio Grande, a dupla de amigos volta às raízes da música portuguesa - se é que algum dia saíram delas. "Baile Popular", o disco que chegou ontem às lojas, é apresentado hoje à noite na Fábrica do Braço de Prata, em Lisboa.
"Já tínhamos duas ou três modas", começa por explicar João Gil, guitarrista e fundador dos Trovante. O resto foi tratado à mesa, com os belos petiscos alentejanos como ponto de partida. "Um estufadinho", brinca João Monge, o autor das letras que formam as histórias de Baile Popular. Um disco que podia muito bem ser a banda sonora de uma viagem sob o céu estrelado do Alentejo. "Ou pelas paisagens áridas do Arizona", acrescenta Gil, que recorre constantemente a imagens para dissecar as notas das canções. "É uma forma de ajudar os músicos a focarem uma ideia. A fotografia deste trabalho é tirada num daqueles bailes de fim de tarde de domingo, em que se sai sempre de mão dada com alguém."
Monge e Gil não negam que o projecto tenha alguma sequência com o Rio Grande, mas garantem que a intenção nunca foi fazer "uma espécie de Rocky IV". "Normalmente dá asneira. Neste caso há um conjunto de histórias. Com o Rio Grande foi diferente, era uma peça única", repara João Gil, enquanto confessa o "prazer extraordinário" que lhe dá fazer este tipo de música. "É uma descoberta, não me corre no sangue. Ainda assim, não deixa de ter um carácter universal: os cantares alentejanos são o nosso canto magrebino, o nosso flamenco, a matriz portuguesa está no seu código genético."
Apesar dessa abordagem ao interior do país, personificada no disco por um quarteto de vozes alentejanas, o novo registo de Gil e Monge "não se circunscreve a essa região". Baile Popular conta com a colaboração de músicos vindos de universos distintos, da pop ao jazz. A julgar pelo resultado, o encontro de ambientes tão distintos foi pacífico. "A grande dificuldade está em catalogar este disco: em que prateleira se arruma? Em B de bandas? J de João? T de tradicional?"
Vai uma mine? Baile Popular não é apenas um disco com um estilo pouco definido. É, antes de tudo, um livro de contos interpretado por João Gil, Alexandre Frazão, Mário Delgado e Miguel Amado. As histórias têm a assinatura de quem começou por tocar guitarra, mas rapidamente percebeu que era nas palavras que jogava a sua melhor cartada. Sem nenhuma história "glamorosa" para contar - "escrevo ao computador, nem faço retiros para me inspirar" -, João Monge explica que o ponto de partida das letras é a sua "tendência natural para coleccionar histórias e pessoas". As personagens do disco são facilmente identificáveis, não estivéssemos nós a falar de figuras que habitam o imaginário colectivo de todas as aldeias portuguesas. "Se formos viajar pelo Interior, facilmente percebemos que todas as aldeias têm um sábio, um maluco e um tipo que toca concertina. Sem estes três gajos não é uma aldeia." Talvez esteja aí o segredo do sucesso da canção "Moda da Mine", que em jeito de movimento espontâneo se tornou numa espécie de hino da selecção portuguesa, graças às maravilhas das redes sociais.
"A mini é a instituição das festas. E todas as estrofes dessa música terminam com "vou mas é beber uma mine". Como se estivesse a dizer: ok, tens razão, o que estás a dizer é mesmo muito importante, mas agora vou beber uma mini". Sem copo e aberta com isqueiro.
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