O dia em que o ponto final se lembrou de José Saramago

por Rosa Ramos e Liliana Valente, Publicado em 19 de Junho de 2010   
Corpo do escritor já está em Lisboa. O funeral é amanhã, ao meio-dia
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Disse que gostaria de ser recordado como "o escritor que criou a personagem do cão das lágrimas" no "Ensaio Sobre a Cegueira". Também disse que a morte não o assustava. "O pior que a morte tem é que antes estavas e agora já não estás."

José Saramago morreu ontem, aos 87 anos, no número 3 da pequena localidade de Tias, em Lanzarote (Espanha), onde viveu nos últimos anos. Morreu ao lado da mulher que um dia o fez parar todos os relógios da casa nas quatro da tarde - a hora em que conheceu Pilar del Rio. Segundo a sua editora, que avançou a notícia, Saramago tinha acabado de tomar o pequeno-almoço. Eram 12h30.

Às cinco da tarde, o corpo do escritor - Saramago vestido de fato escuro e com os inconfundíveis óculos, ao lado de um retrato de Pilar del Rio - já estava em câmara ardente na Biblioteca José Saramago, em Lanzarote. Um grupo de representantes da Associação para a Defesa da Mulher Mararía, de Lanzarote, foram os primeiros a deixar-lhe um ramo de rosas vermelhas.

Entretanto, em Portugal, o Conselho de Ministros declarava dois dias de luto nacional - sábado e domingo - pelo único Prémio Nobel da Literatura português.

Corpo chega às 12h45 A ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, foi ontem ao final da tarde para Lanzarote, em representação do governo português e acompanhada por familiares próximos do escritor. A chegada do corpo de José Saramago está prevista para hoje, às 12h45, ao aeroporto de Figo Maduro, onde será esperado por diversas entidades, incluindo o governo. O corpo segue, depois, em cortejo para a Câmara Municipal de Lisboa, onde decorrerá o velório, no salão nobre dos Paços do Concelho, até às 24 horas de hoje e entre as 9h00 e as 12h de domingo, altura em que sairá para o cemitério do Alto de São João, para ser cremado. Por vontade do próprio escritor, as cinzas serão entregues a Pilar del Rio - segundo José Sucena, administrador da Fundação José Saramago, ficarão depois em Portugal.

Mensagem de despedida "Tenho fama de vaidoso, orgulhoso e mal--educado, mas não sou e os que convivem comigo há anos o dirão", disse José Saramago numa entrevista. Ontem foram várias as personalidades que quiseram expressar publicamente o apreço pelo Nobel da Literatura. E os principais jornais internacionais não passaram ao lado do desaparecimento do escritor. O "El Mundo" escrevia: "Morreu o escritor da lucidez e do compromisso", ao mesmo tempo que a notícia era destacada em jornais como o "The New York Times", a BBC, o "Le Monde", o "El País" ou o "The Guardian".

O editor Zeferino Coelho comparou-o a Eça de Queirós, Almeida Garrett ou Fernando Pessoa. Fernando Meirelles, o realizador brasileiro que levou o "Ensaio Sobre a Cegueira" para o cinema, falou do Brasil: "A lucidez naquele grau é um privilégio de poucos, não consigo escapar do cliché mas, definitivamente, o mundo ficou ainda mais burro e ainda mais cego hoje".

Também do quadrante político foram várias as mensagens deixadas ao escritor que sempre disse não ter "ambição". Passos Coelho, líder do PSD, admitiu que o país ficou mais pobre: "Foi uma personalidade muito marcante, controversa, até, mesmo do ponto de vista político, o que só ajuda a enaltecer", sublinhou. José Sócrates classificou o desa-parecimento como "uma perda para a cultura portuguesa" e Cavaco Silva garantiu que o escritor será sempre "uma figura de referência". Até o seleccionador nacional, Carlos Queiroz, se manifestou: "Viveu até ao fim como se estivesse no início", disse. Adriano Moreira adiantou que a Academia das Ciências - de que Saramago era sócio de honra - irá em breve organizar uma sessão de homenagem, porque "sofreu uma perda importante".

José Saramago, que sempre fez questão de dizer que foi o desemprego que o levou à escrita, nasceu na aldeia ribatejana de Azinhaga, concelho da Golegã, a 16 de Novembro de 1922 - apesar de o registo oficial mencionar o dia 18. O primeiro trabalho que teve foi como serralheiro mecânico. Foi desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, editor, tradutor, jornalista. Membro do PCP, nunca escapou a uma boa dose de polémica, pelo seu ateísmo e iberismo.



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