"Ele construiu um mundo que no futuro vai estender o seu eco"

por José Luís Peixoto, Publicado em 19 de Junho de 2010   
Em 2001 o escritor José Luís Peixoto recebeu o Prémio Literário José Saramago pelo livro "Nenhum Olhar". Ganhou também um amigo que acompanhou até ao fim da vida
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Neste momento, tenho ainda dificuldade de perceber o significado do de-saparecimento de José Saramago. Creio que também Portugal não é ainda capaz de perceber o significado completo dessa perda. Esse entendimento chegará no momento em que eu e Portugal formos capazes de compreender completamente o que significou termos uma figura desta dimensão nas nossas vidas, misturada com as nossas histórias.

Recebi essa notícia em Londres. A chegar de um encontro literário e em direcção a outro encontro literário. O segundo não chegou a acontecer. A notícia chegou-me de Portugal, em mensagem seca de telemóvel. Minutos depois, também por telemóvel, um amigo inglês contou-me que o Festival Literário de Edimburgo iria ser encerrado este ano por uma comunicação de José Saramago. Também esse momento não acontecerá. A morte deixa silêncio.

Se é preciso encontrar palavras, recordo o momento em que o conheci. Em 2001, quando recebi o prémio que leva o seu nome, esperava um homem sisudo, sério, a falar de assuntos sérios. Realmente, aquilo que José Saramago tinha para dizer era sério, mas a forma é muito importante e o homem que recordo sorria, gracejava. Enquanto viver, não poderei esquecer a atenção que prestava às palavras de um rapaz que ainda não tinha chegado aos trinta anos. Hoje, acredito que esse carinho estava ligado à atenção que guardava para com a literatura, esta arte que lhe pertencia e para com esse país, feito de tantas matérias concretas e abstractas, esse país simples e contraditório, que nunca deixou de ser seu, que levou sempre consigo nas palavras, nas obras e no pensamento.

Agora, ficamos com Baltazar Sete-Sóis, Blimunda e toda uma galeria de personagens imortais, de momentos imortais, que permanecem naquilo que escreveu e naquilo que formos capazes de ler. Se não cedermos ao medo, ficamos também com o exemplo de um espírito crítico, atento à sociedade, voz daqueles a quem é negada voz ou cujo sentido é ocluso por vozes mais ruidosas, com megafones mais potentes.

Esse homem de óculos e de rosto sério construiu um mundo que, no futuro que hoje começa, continuará a estender o seu eco. José Saramago ousou enredar--se nos problemas do seu tempo, foi completamente contemporâneo de todos nós, mas criou uma obra que toca as questões essenciais da natureza humana e essas continuarão com a mesma actualidade de hoje: a cegueira e a lucidez, a morte e tudo o resto, a vida incandescente a cada página.


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