"O que passa à eternidade é o talento, o trabalho e dedicação"

por Francisco José Viegas, Publicado em 19 de Junho de 2010   
Em 1991, Saramago mostrou a Francisco José Viegas as 444 páginas da primeira impressão de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo". O escritor e jornalista tornar-se-ia um dos maiores especialistas na obra do Nobel
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Lembro o cenário: uma casa tranquila onde os objectos essenciais eram a mesa de trabalho, um sofá, uma fotografia - e uma janela voltada para o mar. Estávamos na Ericeira e eu tinha combinado entrevistá-lo antes da edição de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", em 1991. José Saramago escrevera e reescrevera o livro num 'videowriter', moderno na época; nessa tarde fez a primeira impressão do texto em papel. Tinha exactamente 444 páginas. Saramago era cuidadoso com os seus livros - entregava os originais quase irrepreensíveis, sem rasuras. E falava sobre eles com uma notável clareza, muito rara. Recordo por isso quando me convidou para fazer a apresentação de "Ensaio sobre a Cegueira", de 1995 - e como falava sobre o livro como se o tivesse escrito há muito tempo. Esta aparente "facilidade" contrastava, no entanto, com a forma disciplinada - e até austera - que rodeava o seu processo de escrita. Foi já depois da atribuição do Nobel, em Lanzarote (repetia-se o mesmo cenário: mesa de trabalho, um sofá, uma fotografia - e uma janela voltada para o mar) que pude perceber o trabalho que acompanhou a escrita de "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (que, juntamente com "Memorial do Convento" e "Ensaio sobre a Cegueira" constitui uma espécie de "trilogia do cânone"): uma agenda, dessas, antigas, domésticas, que Saramago tinha transformado num diário de Ricardo Reis escrito em Lisboa depois de regressar do Brasil, e que funcionaria como uma espécie de "segundo livro" que reuniria a parte estritamente documental do romance. Tudo tinha sido ali anotado, desde o preço do tabaco no Alentejo naquele ano, até à menção das crises diplomáticas que varriam a Europa e anunciavam o fascismo.

Esse trabalho oficinal sempre me apaixonou em José Saramago - e era justamente esse trabalho disciplinado que tornou possível uma obra monumental, escrita do ponto de vista da eternidade. Só um monumento pode fazê-lo.

A consagração de Saramago deve-se à literatura e à sua "intervenção cívica" ? mas só a literatura, que está ligada à eternidade, o irá transcrever mais tarde nas palavras da terra, no gigantesco poema do mundo, onde entrará "Manual de Pintura e Caligrafia", por exemplo, um livro injustamente esquecido, e essa "trilogia do cânone" onde estão inscritas as linhas de quase toda a sua obra: a atenção aos pequenos personagens (quase anónimos, quase insignificantes), o absurdo da História, a ideia de epopeia, a fragilidade do humano e do humanismo.

Tanto em "Levantado do Chão" como em "Memorial do Convento" ou em "Todos os Nomes", os seus grandes personagens são essencialmente humildes, anónimos e colhidos (e escondidos) da massa da multidão. Baltazar e Blimunda em vez do rei que manda construir o convento de Mafra; os camponeses e o cão atravessando os campos do Alentejo e ressuscitando no final, em vez dos "exemplos de classe"; uma mulher anónima e discreta que enfrenta a cegueira do mundo e interpreta as suas metáforas. Mesmo o amor, mesmo o amor: é uma das suas mais belas histórias de amor, a de "História do Cerco de Lisboa", a que é vivida pela editora e pelo revisor - ele, mais uma vez, o homem anónimo, humilde, modesto, que representa toda a modéstia e toda a humildade dos homens e mulheres sem história (à maneira de Gogol; ou encarando o absurdo, como Kafka).

Creio, acreditei sempre - e escrevi-o - que Saramago era um homem extremamente religioso. Só um homem religioso pode rondar a blasfémia e interrogar directamente a figura de um Deus "humanamente injusto". O resto é polémica, passagem, indignações. O que passará à eternidade é isso: talento, trabalho, dedicação.


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