Cinema

Tobis. Dívidas da produtora de cinema ultrapassam os 6,6 milhões

por Rosa Ramos, Publicado em 18 de Junho de 2010   
Para escapar à falência, accionistas ponderam privatizar o mais importante estúdio da história do cinema português
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É cinema, mas não é ficção. O passivo da Tobis, um dos mais antigos estúdios da história do cinema português, já ultrapassa os seis milhões de euros e, para evitar a falência, os accionistas estão a equacionar a privatização da produtora, cujo accionista maioritário é o Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA).

Este é um dos cenários que estão a ser "ponderados" para garantir a continuidade da Tobis, adiantou ao i José Pedro Ribeiro. O director do ICA admite mesmo que a situação da empresa é "extremamente delicada", com as dívidas a agravarem-se sobretudo nos últimos dois anos. Em 2009, o estúdio teve um prejuízo de mais de 1,5 milhões de euros, o que levou o accionista maioritário a emprestar um milhão de euros à Tobis. Já este ano, e para garantir o pagamento dos salários aos 66 funcionários, foi feito um novo suprimento de 166 mil euros. Feitas as contas, o passivo já totaliza mais de 6,6 milhões de euros. Dificuldades que, justifica o director do ICA, se têm acentuado "pelos efeitos da actual conjuntura económica e também pela evolução tecnológica do cinema", nomeadamente a transição da película para o digital. Só desde 2004, aliás, é que a produtora começou a apostar em novas áreas operacionais como o digital.

Morte anunciada? Apesar das dívidas, o ICA assegura que o encerramento do estúdio não está em causa. "O principal desafio que a Tobis tem pela frente é encontrar o seu posicionamento no mercado", garante José Pedro Ribeiro. No mês passado, uma comissão de trabalhadores reuniu-se com a ministra da Cultura. E Gabriela Canavilhas admitiu a hipótese da privatização. "Disse-nos que, face os números e à situação conjuntural, seria difícil ao Estado viabilizar a empresa. Por isso, a privatização seria a saída mais provável", recorda Hugo Leitão, técnico de som e representante sindical dos trabalhadores.

Contudo, no mesmo encontro, a ministra terá admitido "que, dado o momento actual, encontrar um investidor será muito difícil". Em Março e Abril, os salários - que representam um encargo mensal de cerca de 90 mil euros - tiveram de ser pagos em tranches de "250 euros semanais".

Para o dia 28 está agendada uma reunião do conselho de administração para decidir o futuro da empresa. Em Março, os accionistas estiveram reunidos, mas a decisão foi adiada. "Sem que nos tenham dado uma justificação fundamentada", critica Hugo Leitão. Mas, aconteça o que acontecer, acredita, "dificilmente será encontrada uma solução que satisfaça toda a gente. O Estado não tem capital para injectar na Tobis. A solução será sempre de sacrifício". Dos 66 trabalhadores (além dos três administradores), a maioria tem mais de 25 de serviço. "E é este sector dos funcionários mais velhos que está a entrar numa zona de desconforto", lamenta o representante sindical.

Má gestão Boa parte das dívidas, garante Hugo Leitão, é dos próprios accionistas. "Não existe qualquer tipo de fiscalização ou de política proteccionista interna. Tem-se deixado sair, por exemplo, trabalhos sem que sejam pagos", critica, acrescentando que "a responsabilidade do conselho de administração não pode ser descartada".

As dificuldades têm-se acentuado nos últimos dois anos. E se o ICA defende que a Tobis precisa de encontrar um posicionamento no mercado, os trabalhadores acreditam que é difícil conseguir uma posição concorrencial. "Há encargos mensais fixos e se o volume de trabalho for baixo, como tem sido, a empresa é impedida de fazer concorrência às pequenas produtoras", sublinha Hugo Leitão. A alienação de património poderá ser outra saída, mas a administração opõe-se. Chegaram a estar à venda terrenos em Queluz, mas o negócio foi inviabilizado porque o PDM (Plano Director Municipal) não permitia que fossem usados para outros fins que não cinematográficos.


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