"Jeans justos? Um hermafrodita não pode ter jeans justos. Não se esqueça que tem um pénis e uma vagina." A explicação anatómica é dada por Rui Vilhena via telefone à produção da nova novela da TVI "Bem-me-quer, Mal-me-quer". É que se na vida real pode haver quem use, nas novelas não se perdoam erros. "Uma novela é como uma equipa de futebol, toda a gente dá palpite e é técnico da selecção. Criticam a escolha dos jogadores, a forma como jogam. Nada escapa", conta o autor de 49 anos, que nasceu em Moçambique mas viveu e estudou no Brasil e de lá trouxe o sotaque. "Outro dia fui jantar à casa de um amigo e não dava com a rua. Andei às voltas e não via ninguém. Passado algum tempo, encontro um homem e peço-lhe ajuda. Era um primo que não via há anos. Se pusesse isso na novela, ninguém acreditava."
Rui Vilhena recebe-nos na sua casa na linha do Estoril, onde trabalha. Diz que quando escreve uma novela vive com 40 personagens dentro de si. É desta forma que o encontramos, já com uma vilã, interpretada por Fernanda Serrano, a pairar no ar. "Trabalho 11 horas por dia e quando desligo o computador estou exausto. A minha mulher diz que quando escrevo uma novela grito durante noite. Carrega os 40 filhos o dia inteiro. Resultado: "'Cê está a tomar banho pensando nas personagens, até a fazer sexo você pensa nas personagens. Quando chego ao capítulo 150, só me apetece matar todos."
Apesar de ser conhecido pelas novelas de sucesso que escreveu para a TVI, como "Ninguém Como Tu", Rui Vilhena não quer ficar preso a essa imagem. Acaba de lançar o seu primeiro romance - "Doces Tormentas" - que vai adaptar ao cinema. "O meu primeiro livro faz lembrar um guião e é sobre o desgaste dos relacionamentos de três casais. Não queria fazer um livro pretensioso, queria fazer algo simples, para ler na praia, na piscina. Mas obrigar a alguma reflexão. As relações começam sempre de maneira doce e terminam numa grande tormenta. Acho que o maior inimigo do amor é o tempo. O tempo destrói tudo, principalmente o amor", explica.
Em "Bem-me-quer, Mal-me-quer" também há muitas histórias de amor e uma vilã ao estilo de Luíza Albuquerque, personagem que Alexandra Lencastre interpretou em "Ninguém Como Tu". Mas qual é a fórmula secreta das novelas? Rui Vilhena conta-nos alguns dos seus truques e como é o seu método de trabalho. Quem quiser, pode experimentar em casa.
Sem ideia nada feito
Quer seja uma novela, um livro ou uma peça de teatro, tudo começa por uma ideia. Tão simples quanto isto. "A ideia surge de assistir um talk show ou uma reportagem no jornal", explica Rui Vilhena. Por isso, esteja atento. "Acho que a espinha dorsal de todas as minhas novelas surgiu quando estava a escrever outra." Ou seja, quando menos espera, nasce a ideia. "Quando vi uma entrevista com o ciclista Lance Armstrong que congelou o esperma, depois de saber que tinha cancro nos testículos, percebi que podia usar isso numa novela. Em 'Tempo de Viver' uma das personagens fez o mesmo. Mas tem spin folhetinesco: depois de morrer, a viúva usa o esperma para ter um filho e ficar com a herança."
Esticar uma ideia
Nunca esquecer que se um livro pode ter 30 ou 200 páginas, uma novela tem de ter em média 150 a 200 episódios. "Há ideias que são boas, mas não dão para esticar. Por exemplo, a eutanásia. Não consigo esticar isto por 200 episódios. Quando tenho uma história estico-a antes, até chegar à acção, no meio da novela, e depois surge a segunda parte, o desenlace", diz Rui Vilhena. Por exemplo, em "Tempo de Viver" é a meio da novela que Maria Laurinda consegue o esperma congelado do falecido. Antes temos toda a luta para conseguir casar com ele. Depois o coitado morre, e surge o plano para recuperar a herança que terá um fim à altura do desafio. Criar subplots - acções paralelas igualmente interessantes - é outro truque para manter o interesse do público. "Todo o personagem tem de ter um conflito inteiro se não qual é a função dramática? Não basta ser o primo de X. Podemos usar os mini-plots como marketing social. Não é para chocar, mas para gerar discussão. Já tive homossexuais, bissexuais, transexuais, nesta novela vai haver um hermafrodita."
Um Título não é uma canção?
"O título provisório nunca é o final. Agora, escolho como provisório o que não gosto", diz a rir o autor. O título é o resultado dos gostos da estação, da direcção e do autor. Mas já reparou como quase todos nasceram de canções. Nem sequer é a história do ovo e da galinha. 'Perfeito Coração' ou 'Ninguém Como Tu' foram canções antes de se transformarem em genéricos. "Tornou-se muito previsível. Os artistas têm de arriscar", defende Vilhena.
Destino da personagem
Antes de começar a escrever tem de definir a trajectória da personagem principal. O que é que ela quer? Todas querem qualquer coisa e têm um conflito interno. A fórmula secreta das novelas inclui ainda uma boa história de amor, que terá obrigatoriamente um final feliz. "Antes de começar a gravar, tenho um calendário de eventos principais, ligados à espinha dorsal da novela. Tenho de ter controlo sobre o que se vai passar", diz o guionista. Mas a novela é escrita para o público e pode ser alterada ao longo do tempo. "Se rejeitarem uma personagem, ela fica com menos deixas ou desaparece."
O vilão é o rei da novela
"O público esquece o nome das novelas, dos actores, até da história, mas lembra sempre da Perpétua ou da Luísa Albuquerque. Os vilões marcam, são fascinantes. Tudo é permitido, podem fazer as maiores barbaridades. Uma história é tão boa quanto o seu vilão", diz Rui Vilhena. E os heróis? "Os bons são uns chatos. Para os autores fazer com que os bonzinhos não sejam demasiado chatos é o maior desafio." Truque: pôr o herói a fazer asneiras. Não muito graves, mas bolas, ele é humano e também têm de mentir um bocadinho e perder as estribeiras.
Ricos e pobres
"A novela tem de ter ricos e pobres. A pessoa apanhou dois autocarros, um metro e quer chegar a casa e ver roupas, casas bonitas e sonhar. Já o Hitchcock usava o glamour nos seus filmes", defende o guionista. As pessoas querem sonhar até com pequenos-almoços surreais? Quanto a isso o autor não manda, é a produção que escolhe abacaxis e fisálias.
Você ou meu?
A linguagem tem de estar adequada ao tipo de personagem. "Há escritores que não sabem escrever para ricos, outros para pobres. Na novela "Olhos nos Olhos" tinha um rapaz de 20 anos a escrever para adolescentes. É muito importante ter diálogos credíveis. Por isso, há ricos que tratam o filho por você outros que não o fazem." Rui Vilhena cria o esqueleto dos episódios, mas divide a escrita com seis guionistas. Antes de serem gravados, Rui Vilhena e Joana Jorge (o seu braço direito) lêem em voz alta todos os diálogos para ver se resultam oralmente.
Um beijo por episódio
Regra de ouro: em todos os episódios tem de surpreender o espectador. "Num episódio tem de haver um beijo e uma discussão."
Sentar o mínimo possível
Faça o exercício. Conversa ou discute confortavelmente sentado de perna cruzada? Provavelmente não. "As minhas cenas nunca arrancam com as personagens sentadas. Isso é falta de ritmo. Há maneiras de um autor se proteger. Por exemplo, escrevo: "Durante o diálogo, Luíza caminha pela sala e vai pondo as chaves, o telemóvel na mala porque está de saída."
E viveram felizes para sempre
É a aposta mais segura de sempre: a telenovela vai acabar bem. Os bonzinhos vão ganhar sempre, mesmo que antes tenham de escalar o Evereste, descobrir a irmã perdida no deserto do Sahara ou doar um rim a uma criancinha angolana. Tudo pode acontecer. Mas vai acabar bem. O que nem sempre agrada aos escritores. "O final da novela é um sofrimento. A novela exige um final feliz, se não o público sente-se defraudado. Tento encontrar um meio termo e não ser moralista. É que na vida real quem se dá bem são os maus, e se a novela é um espelho..." Rui Vilhena defende que é fundamental que a história de amor acabe bem. Agora, se o vilão apanha um avião e foge ou morre num lar, é mais variável.




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