Música

Sedutora Carminho, a nova estrela do fado (veja o vídeo)

por Joana Stichini Vilela, Publicado em 29 de Maio de 2009   
A sua história começa no Mesa de Frades, em Alfama, passa por uma ordem de freiras e culmina em "Fado", o álbum que chega segunda-feira às lojas
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Quem larga tudo para partir de mochila às costas numa viagem de 11 meses pelo mundo procura respostas. Os afortunados, como Carminho, encontram-nas. Aos 22 anos, concluído o curso de marketing, aquela que é desde há muito apontada como uma das grandes novas vozesdo fado deixou Lisboa rumo a Calcutá, na Índia. Queria conhecer-se melhor, conta. Em Janeiro de 2008, voltou a pisar solo nacional com mais na bagagem do que as recordações dos 19 países da Ásia, Oceânia e América do Sul que percorreu; trazia uma conclusão: queria fazer da música a vida dela.

Enquanto esteve fora, Carminho não cantou fado. Nem quando os moribundos que cuidou durante mês e meio com as Irmãs da Caridade em Calcutá lhe pediam uma canção. Nessas alturas, a jovem voluntária respondia com músicas tradicionais portuguesas. "Eles gostavam muito", conta. "É uma forma de comunicação fantástica." E não ficava por aí. Massajava-lhes as mãos com óleos essenciais, obrigava-os a fazer ginástica, tentava dar-lhes algum conforto naqueles momentos finais. Chegara a Calcutá sem planos. Sabia da existência da obra da Madre Teresa e foi lá bater à porta. Tão simples como isto.

Seguiu a mesma estratégia em Siam Reap (a vila que dá acesso aos famosos templos de Angkor), no Camboja. Viu duas freiras, saltou do "rickshaw" onde seguia com a prima e seguiu-as por um mercado adentro. Passou duas semanas a trabalhar com crianças. Em Timor, foi à procura de uma outra religiosa, a Mana Lu, que vivia nas montanhas. Durante mês e meio deu aulas de português. Aqui chegados, nem é preciso dizer que Carminho é uma mulher de fé. "Dá-me força. Está sempre presente", diz. "É uma condição, como existir."

Histórias de sangue Voltou sedenta de fado. Amigos e família perguntavam-lhe se era desta que avançava com uma carreira profissional. Ela assentiu. Estava finalmente preparada para assumir as responsabilidades que um primeiro álbum implica. "Um disco não é um fim em si mesmo. É o princípio de uma carreira", explica. Quis que este primeiro trabalho reflectisse o seu percurso como fadista - uma ambição à primeira vista estranha para uma pessoa de 24 anos, que se estreia agora como profissional. Mas a verdade não é bem essa.

Filha da fadista Teresa Siqueira e irmã de Francisco Rebelo de Andrade (ex-concorrente da "Operação Triunfo", na RTP), Carmo Rebelo de Andrade começou a cantar com a mesma naturalidade com que aprendeu a falar. "Nas viagens de carro, para não discutirmos, a minha mãe punha-me a mim e aos meus três irmãos a ensaiar cantigas. Saímos todos afinados", conta. Até aos 10 anos viveu no Algarve. Como por lá não havia casas de fados, os pais organizavam tertúlias em casa. "Tenho uma fotografia de quando tinha quatro anos, de pijama, cor-de-rosa dos pés à cabeça, ao colo do meu pai e a ouvir a minha mãe cantar", exemplifica. "Estava lá o [fadista] Carlos Zel."

Carminho tinha apenas 12 anos quando cantou em público pela primeira vez e logo no Coliseu de Lisboa. "Senti-me importantíssima. Depois houve choradeira por causa das roupas", lembra. "A minha mãe vestiu-me de camisa aos folhos e eu queria ir ?de mulher pequena?, como as outras meninas mais velhas, que usavam vestidos de alcinhas e saltos altos."

Daí para a frente começou a cantar na Taverna do Embuçado, em Alfama, gerida pela mãe. À noite adormecia nos bancos. Os empregados adoravam-na, faziam-lhe petiscos às escondidas da patroa. "Depois eu tinha de ir cantar e não conseguia porque tinha o estômago cheio", ri. "Então a minha mãe mandava-me ir correr: ?Vá fazer becos?. Ainda hoje há essa piada em minha casa. Quando se vê alguém a comer muito, dizemos, ?depois tem de ir fazer becos?".

Há quatro anos que Carminho canta no restaurante Mesa de Frades, também em Alfama. Já em 2007 apareceu em destaque na revista alemão "Mini International". No mesmo ano participara no filme "Fados" do espanhol Carlos Saura. Mas não havia maneira de o disco sair. Até agora. Chama-se "Fado". Não podia, diz ela, ter outro nome.

Lições de sedução Encontramo-nos no escritório da EMI Music Portugal, no Parque das Nações, em Lisboa, poucos dias antes do lançamento do álbum a 1 de Junho. Assegura não estar cansada, mas a verdade é que esta é já a sétima ou nona - não sabe bem - entrevista do dia. A agitação em torno do disco apanhou-a de surpresa. "Sabia que no meio do fado as pessoas me conheciam e já perguntavam quando ia sair. Mas fora do meio não tinha consciência. Pensava que as pessoas iam agora começar a conhecer-me", admite.

Carminho é uma sedutora. Viçosa, de sorriso fácil e olhos brilhantes, transfigura-se quando pisa um palco. Ela diz que vai para outro mundo. "Não penso em nada. As palavras vão directas a sentimentos. Às vezes, abro os olhos e percebo que estive o tempo todo a cantar de lado", reforça. Agradece à fadista Beatriz da Conceição que a ensinou a enunciar as palavras com intenção. "Dizia-me: 'Como é que podes estar a dizer Deus como quem diz copo de água'; 'tu não podes cantar amor que não percebes nada de amor!'". Ela reconhece que ainda não tem idade para cantar tudo. Quem a ouve, no entanto, gaba-lhe a intensidade, a verdade, a força da interpretação. Nem o cineasta João Botelho resistiu aos encantos dela. Acabou a realizar-lhe quatro telediscos em tempo recorde.

Saia ou calças? Este disco é o toque na primeira peça do dominó; aquela que provoca a queda de todas as outras. Para já, Carminho está a gozar o momento. Dia 10 de Junho actua na Tailândia, a convite dos embaixadores portugueses. Já lá tinha estado quando deu a volta ao mundo e até tinha dormido na embaixada. "Agora vou voltar num registo mais profissional, menos pé rapado." Mesmo assim, um dia destes, a embaixatriz fez questão de se certificar. "Ligou-me, quase com medo de perguntar, 'eu sei que tu vens de saia, mas tens a certeza que não vais usar calças de ganga, não tens?'"

 

Parece uma actriz, diz o realizador João Botelho
Há quatro meses que o cineasta João Botelho tem uma nova rotina: às segundas e quartas-feiras janta no Mesa de Frades, em Alfama. Foi lá que conheceu Carminho e é lá que a revê. O realizador nem era  apreciador de fado; ela arrebatou-o. “Tem uma voz sem mácula”, diz. “É uma menina de boas famílias, mas canta com as vísceras.” Fez-lhe quatro vídeos, com som directo, “por causa dos pequenos enganos, das respirações, da emoção ao vivo, que arrepia”. Num deles, “Meu Amor Marinheiro”, violou uma regra do fado e filmou-a de olhos abertos. “Ela canta para nós. E não pestaneja. Parece uma actriz.” Não é ele a única conquista: “A viúva do [poeta] David Mourão--Ferreira foi à Mesa de Frades e ouviu-a cantar o ‘Escada em Caracol’. Ficou fascinada. Disse-lhe: ‘Tenho lá uma data de inéditos e só lhos dou a si.’”



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