Visto de Fora

Quando a inveja destrói os grandes talentos

por Francesco Alberoni, Publicado em 15 de Junho de 2010   
Basta uma gota para se passar de um estado de graça à desgraça, mesmo que a pessoa não tenha cometido qualquer erro e seja apenas alvo de boatos ou insinuações maldosas
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O caso de Laura Antonelli, uma das mais belas e famosas actrizes do cinema italiano, vítima da maldade e da desgraça, fez--me pensar em todas as pessoas famosas e meritórias que, ao longo da história, acabaram na pobreza ou foram perseguidas injustamente. É fácil passar do aplauso ao desprezo, da glorificação ao insulto [aqui são as atitudes dos outros que "passam" de uma coisa a outra]. Mesmo quando se trata de pessoas nobres e inocentes, basta um pingo de lama para que haja logo quem lhes encontre defeitos e lhes agigante os erros.

Muita gente de valor foi destruída assim. Sócrates, o pai da moral racional, foi condenado à morte; Cipião, o conquistador de Cartagena, foi acusado e obrigado a partir para o exílio; Galileu, o maior cientista da história, foi preso, e Lavoisier, o criador da química, morreu na guilhotina entre insultos da populaça; Semmelweis, que descobriu a cura para a febre puerperal, causadora de grande mortandade entre as mulheres, foi internado num manicómio.

Em Itália ocorre-me o que foi feito a Enzo Tortora, um homem doce e amado pelo povo que foi vítima de acusações infames e objecto de escárnio.

Há uma proximidade misteriosa entre a glória e o desprezo. Os mesmos que gritaram "Viva" agora gritam "Abaixo"; quem gritou "Amo-te" agora grita "À morte". Mas temos de estar atentos, porque esta mudança imprevista de opinião não acontece espontaneamente, é sempre obra de alguém que já sentia ódio e que aproveita a oportunidade adequada [a que esperava] para convencer os outros. De facto, todos aqueles que se distinguem, que têm valor, que são amados e admirados têm inimigos que os odeiam e invejam de modo feroz. Enquanto são amados, admirados e têm poder, estas pessoas cheias de inveja e de ódio resmungam e queixam-se, mas só podem remoer e sonhar com a vingança. Mas assim que as pessoas de valor ficam mais fracas, cometem um erro ou são acusadas injustamente, lançam as suas campanhas de calúnia e difamação, espalham todo o tipo de mentiras, berram "escândalo" e fazem com que pareçam biltres. Além disso, como tais pessoas são decididas e organizadas, conseguem arrastar as outras. É verdade que também há quem não se deixe convencer, mas a maior parte segue-os como um rebanho. É assim que uma minoria de velhacos e invejosos, manobrando as desconfianças, as suspeitas e a credulidade, consegue destruir aqueles que são melhores que eles. Sociólogo e jornalista

Escreve à terça-feira

Enzo Tortora, um apresentador de TV, foi injustamente acusado de pertencer à Camorra e de tráfico de droga. Morreu pouco depois de ter sido reabilitado. (Nota do editor)


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