Internacional
Merkel e Sarkozy propõem retirar voto a países que violem o limite do défice
por Cláudia Garcia, Publicado em 15 de Junho de 2010
O eixo franco-alemão pretende avançar com um governo económico da UE. Jean-Claude Juncker, o presidente do Eurogrupo, discorda
Angela Merkel e Nicolas Sarkozy deram ontem as mãos em Berlim para anunciar decisões fortes para a União Europeia (UE). A chanceler alemã e o presidente francês pretendem impor a suspensão do direito de voto dos Estados-membros da UE que violem o limite de 3% do défice orçamental e acordaram avançar com a proposta para a constituição de um governo económico europeu.
Depois da última semana, em que os dois países europeus reforçaram as medidas de austeridade, Sarkozy viajou até Berlim para negociar um "governo económico", a incluir os 27 estado da UE, e não só os 16 da zona euro como era a pretensão da França. A Alemanha, que sempre puxou o travão à formação de um governo económico comum à zona euro, admitiu ontem essa possibilidade.
Em conferência de imprensa, no final da reunião, Merkel falou na importância da criação de um "governo económico" ao nível da União Europeia a 27, que deve atender os países da zona euro em caso de necessidade. Os dois líderes sublinharam a importância da união e cooperação entre os 27 chefes de Estado e de governo para a resolução dos problemas económicos.
O que parecia afastar Merkel de Sarkozy era o facto de a chanceler pretender incluir os 27 Estados da UE nesse governo económico, enquanto Sarkozy preferia avançar com os 16 do eurogrupo em situação de emergência. Jean-Claude Juncker reagiu de imediato: "Nós temos um eurogrupo que funciona com os ministros das finanças. Uma vez por mês trocamos pontos de vista." Juncker é contra a ideia, mas estas posições não deixam de marcar a agenda da próxima cimeira da UE, na quinta-feira.
A propósito da suspensão do direito de voto dos Estados-membros da UE que não cumpram o défice orçamental de 3% ou o limite de endividamento de 60% do produto Interno Bruto (PIB), Merkel afirmou que a "UE assume a necessidade de alterações no seu tratado". Na verdade, o Conselho Europeu ainda não se pronunciou sobre essa possibilidade, apesar do pedido de Angela Merkel.
França e Alemanha têm um objectivo comum muito claro: evitar o contágio da Grécia a outros países da zona euro. O secretário do Tesouro espanhol, Carlos Ocaña, reconheceu ontem, oficialmente, o congelamento de liquidez de alguns bancos espanhóis. Mas avisou que o governo "não irá procurar um resgate financeiro europeu", como a Grécia fez. Apesar das dificuldades evidentes da quarta maior economia da zona euro, o governo alemão e o presidente da Comissão Europeia já negaram qualquer pedido de ajuda financeira. "A Espanha sabe bem que pode fazer uso do mecanismo de resgate de 750 mil milhões de euros - fundo de emergência das finanças da UE e do FMI - estabelecido para o euro", disse Merkel. A chanceler alemã avisou que o mecanismo pode ser accionado a "qualquer momento" pela Espanha e por qualquer outro Estado.
Os dois motores da união europeia decidiram também "propor um projecto de tributação sobre operações financeiras e bancárias", que levarão ao encontro do G20 em Toronto no final do mês, anunciou Nicolas Sarkozy. Merkel sublinhou que a Alemanha e a França não estão satisfeitos com as propostas até agora aprovadas no G20, o grupo dos países mais industrializados do mundo mais os principais países emergentes. Ambos querem que a regulação dos mercados financeiros "avance mais depressa". Os líderes já traçaram uma estratégia para vencer a resistência de alguns países, como Brasil ou o Canadá, quanto à introdução de um imposto internacional sobre transacções financeiras. A chanceler alemã sugeriu que, em Toronto, deve haver uma "declaração de intenções" neste sentido, "mesmo que depois alguns Estados actuem de modo diferente".
Mas nem tudo são rosas no relacionamento entre Sarkozy e Merkel: França quer cimeiras regulares entre líderes da zona euro, geridas por uma secretaria específica, para harmonizar políticas económicas, sociais e fiscais. "Não se trata de criar novas instituições, mas sim de agir de forma pragmática e eficiente", diz Sarkozy. Porém, o jornal "Le Monde" noticiou ontem que a institucionalização dessas reuniões, exigida por Sarkozy, foi "abandonada".
Entretanto, os sinais de recuperação económica das últimas semanas, com o crescimento de quase 1% do euro para 1,22 dólares e com a subida de 1% das acções nas bolsas europeias, provocaram ontem avisos: existe o risco de um excessivo optimismo nos países europeus.
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Merkel e Sarkozy propõem retirar voto a países que violem o limite do défice
Actividade em ionline