Visto de fora
Conhecer para orientar a economia (e a cultura)
por Francesco Alberoni, Publicado em 08 de Junho de 2010
É difícil fazer a distinção entre despesas inúteis e instituições vitais e por isso os governos têm de ter muito cuidado para não provocarem desastres irremediáveis, às vezes por ignorância
Ninguém sabe qual é o futuro, mas os seres humanos sempre conseguiram fazer previsões razoáveis com base na experiência e no raciocínio. Os egípcios tinham aprendido a prever as cheias do rio e a criar zonas férteis por meio de canais. Todas as campanhas militares se baseiam em previsões relacionadas com as tropas do inimigo, as suas deslocações e movimentações.
O vencedor quase nunca é quem tem o exército maior, mas sim quem conhece melhor a psicologia do inimigo e o apanha de surpresa, como fizeram os alemães ao contornar a linha Maginot, atrás da qual os franceses se sentiam seguros. A última crise económica foi prevista por poucos, entre eles Tremonti, a quem devemos estar gratos pelo facto de, há anos, ver com receio e suspeita as manobras da alta finança.
Não tendo sido apanhados de surpresa, conseguimos limitar os danos. Mas depois passámos a ver mais longe e não nos ocorreu que pudesse existir uma especulação sobre o próprio Estado. Daí que procuremos, hoje, uma solução à pressa. No entanto, as opções apressadas, que não são preparadas com cuidado, com conhecimento profundo das situações, podem causar erros gravíssimos.
Há um óptimo filme chamado "Thirteen Days", que fala da crise de Cuba, quando o presidente Kennedy estava obcecado pela possibilidade de cometer o mesmo erro que tinha desencadeado a Primeira Guerra Mundial. Portanto, em vez de deixar que fossem os funcionários e os militares a tratar do assunto, ocupou-se de tudo pessoalmente, com minúcia e sensatez. Só essa precisão visionária obrigou os russos a retirarem-se e acabou com a Guerra Fria.
Contudo, é muito frequente os governantes não conhecerem os pormenores das situações. O que sabia Mussolini sobre a real situação do armamento, do exército, da marinha, da aviação? Nada, apenas rumores, e o povo italiano acabou por pagar isso amargamente.
Com a crise económica actual, o governo deve reduzir rapidamente a despesa pública. No entanto, para poder agir de forma sensata, tem de conhecer muito bem a realidade do país, sabendo onde pode eliminar despesas inúteis e onde os cortes podem destruir instituições vitais. É um erro que o governo pode cometer num campo mais frágil como o sector cultural. Por exemplo, pode não saber avaliar bem a importância, tanto a nível mundial como produtivo, de instituições como o Scala, a Bienal ou o Centro Sperimentale di Cinematografia con Cineteca Nazionale (para dar só alguns exemplos) e achar que são custos desnecessários.
Sociólogo e jornalista
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Artigo: Conhecer para orientar a economia (e a cultura)
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