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Retrato de um viciado em crack e prostitutos

por Denny Lee, Publicado em 08 de Junho de 2010   
Bill Clegg foi um dos mais bem-sucedidos agentes de Nova Iorque, mas perdeu-se em drogas e sexo. O seu livro foi publicado ontem
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Bill Clegg, agente literário, consumidor de crack em recuperação e possível viciado em sexo, anda pelo lobby do Hotel Gansevoort, em Nova Iorque, com um Blackberry colado ao ouvido. Um segurança olha-o de cima a baixo antes de segurar a porta do elevador.

Encontra um lugar no bar soalheiro no terraço do hotel e examina as pessoas à sua volta. "É a primeira vez que volto aqui", afirma, referindo-se ao negro e sórdido episódio de quando se registou com um nome falso e se perdeu em crack, prostitutos e vodka do serviço de quartos durante quase três semanas.

Os amigos do sector editorial compararam o episódio com a explosão do vaivém espacial, porque foi como se todo o mundo literário de Nova Iorque testemunhasse o desastre. Os editores sussurravam, os escritores intrigavam e as publicações especializadas escreveram notícias invocando "razões pessoais" para o seu desaparecimento. Ainda hoje poucas pessoas na indústria estão dispostas a falar disso. Mas agora chegou o livro de memórias.

O princípio do fim Depois de ter estado neste lado da edição de livros como o sedutor agente de escritores de renome como Nicole Krauss e a poeta Anne Carson, Clegg mergulhou, menos escandalosamente, na auto-análise para escrever um livro revelador, "Portrait of an Addict as a Young Man" ("Retrato de um Viciado enquanto Jovem"). Um agente mais cínico poderia dizer que é uma manobra astuta, mais um livro que aproveita a moda das memórias de viciados. Porém, Clegg insiste que não pensou nisso "em termos do panorama de outros livros", diz. "As minhas ansiedades acerca disso foram artísticas."

Publicado ontem nos Estados Unidos, o livro relata a sua angustiante queda no vício do crack durante os primeiros meses de 2005, quando deixou, subitamente, de aparecer na agência literária que fundou, a Burnes & Clegg, deixando os seus escritores, a sócia e o namorado residente sem saberem o que fazer.

Grande parte do livro passa-se numa sucessão de hotéis chiques do centro de Manhattan, que Clegg transformou em antros de crack de charme, onde gastou quase 60 mil euros das suas economias. A história não é original, mas Clegg descreve-a com detalhes dolorosos, num tom prosaico que esconde o horror.

Há a primeira vez que experimentou crack - "sabe a remédio ou a detergente, mas também é adocicado, como a lima". O encontro amoroso com um taxista nas traseiras de uma loja de conveniência em Newark - "o que eu quero é o esquecimento do sexo puro e duro". Ou aquela vez em que o namorado, um realizador de cinema nova-iorquino que aparece no livro com o pseudónimo de Noah, observa Clegg enquanto este fuma crack e tem sexo num quarto de hotel com um prostituto brasileiro de 300 euros à hora chamado Carlos - "vergonha, prazer, preocupação e aprovação colidem, e o pior do pior já não parece assim tão mau".

Agente especial Igualmente dolorosos são os flashbacks em que regressa a uma infância atormentada por uma bizarra incapacidade de urinar quando queria. Aqui Clegg reverte para a segunda pessoa. "O rapaz é um animal em pânico - agita--se, salta e belisca-se diante da sanita", escreve, recordando um acidente na casa de banho em casa quando tinha cinco anos. "Nesse momento marcante, quando perde o controlo e tudo se desvanece num instante de dor e alívio, salpica a parede, o chão, o aquecedor, ele próprio."

Os dois fios narrativos podem parecer incoerentes, mas apontam para uma tragédia única. Escondido por detrás da personalidade cuidadosamente cultivada de Clegg - o agente talentoso e perspicaz, o anfitrião educado que dava festas agradáveis no seu apartamento na Quinta Avenida; o editor com contactos que conseguia grandes adiantamentos para os escritores mais importantes - estavam estes monstruosos segredos.

E a ampliar esse segredos, pelo menos na sua mente, estava uma insegurança profunda em relação a ter êxito numa cidade onde toda a gente parecia mais rica, estudou nas melhores universidades e era mais educada. "Nunca tive nenhum manual de instruções", afirma Clegg, que cresceu num Connecticut rural, filho de um piloto da TWA, e que frequentou, admite com relutância, o Washington College, uma pequena instituição no Maryland. "Toda a gente tinha um padrinho que era um editor famoso. Ou passavam as férias de Verão no Maine com escritores famosos."

Clegg recorda-se de visitar Nova Iorque algumas vezes quando tinha 20 anos e sentir que era de outro campeonato. "Éramos tão pouco sofisticados...", diz. "Comíamos num restaurante chinês em Murray Hill e pensávamos que era a coisa mais fascinante que já nos acontecera."


A Queda A sua ascensão meteórica é, claro, a matéria de que são feitos os sonhos em Nova Iorque. Depois de frequentar um curso de edição de livros na universidade de Radcliffe, conseguiu um emprego modesto na Robbins Office, que representava muitos autores da "New Yorker", incluindo David Remnick, e mudou-se para Nova Iorque. "Quando comecei não sabia a diferença entre a 'New York' e a 'New Yorker'", confessa.

No entanto, mostrou um dom natural para o trabalho e depressa foi promovido a agente por direito próprio. Ficou até 2001, quando saiu para começar uma pequena agência, aos 31 anos, com Sarah Burnes, uma amiga que conheceu nos círculos editoriais.

Se a sua ascensão foi rápida, a sua queda foi quase suicida. No início de 2005, após muitas bebedeiras de vodka, um passador de crack chamado Happy e um frasco vazio de calmantes, a sua vida implodiu. A agência literária dissolveu-se. Os agentes rivais lançaram-se ao assalto e roubaram os seus escritores. E o namorado de oito anos foi-se embora, e com ele o local das festas na Quinta Avenida.

Todos os livros de memórias de vícios oferecem redenção; a dele vem, previsivelmente, sob a forma de desintoxicação. Clegg dá entrada no Retreat, em Wetchester, um centro de reabilitação em White Plains, e dá início à sua reconstrução. Durante esse tempo começa também a escrever o diário que depois se tornaria o seu livro de memórias.

O livro publicado destaca propositadamente que depois da reabilitação Clegg se mudou para um pequeno estúdio em Chelsea, onde passava o tempo a olhar para as paredes e de onde vendeu duas fotografias de William Eggleston por 16 mil euros para pagar uma série de recaídas. "Os mesmos taxistas", recorda. "A mesma paranóia. A mesma vontade de morrer."

Mas acaba por conseguir parar. "11 de Junho - foi o dia em que fiquei sóbrio."

Isso foi há cinco anos e Clegg, que tem agora 39 anos, não se parece nada com a criatura "esquelética, trémula" que descreve no livro. Aparece para a entrevista no Hotel Gansevoort bronzeado e bem vestido. Um homem atraente e ligeiramente rude, com a cabeça coberta de cabelo louro, faz lembrar um estudante universitário demasiado crescido, com um pólo verde desbotado e um casaco de lã preto. Pede à empregada um chá Earl Grey, com uma voz suave e ritmada que se apaga com um ponto de interrogação ou o sorriso ocasional. Não se esquiva quando o questionamos acerca de alguns dos seus momentos mais inconvenientes, como aquela vez em que falhou a grande estreia do filme de Noah no Festival de Berlim por causa do crack. Noah, que ainda vive na Quinta Avenida, declinou comentar ou ser identificado.

Nas duas horas seguintes, Clegg traça a curva da sua vida pós-reabilitação: como ainda frequenta reuniões dos 12 passos, como continua sozinho, e como conseguiu voltar a ser agente literário na William Morris Endeavor Entertainment. Ao que parece, bastou um simples almoço.

O regresso Jennifer Rudolph Walsh, uma das responsáveis pelo departamento literário da William Morris, não o tinha perdido de vista. Walsh, fundadora do Young Lions Fiction Award, diz que "a maioria dos autores que estavam na nossa lista de candidatos eram representados por Bill Clegg".

Assim, quando ouviu que Clegg estava em processo de limpeza, telefonou-lhe. "Assim que nos sentámos e começámos a falar sobre o que ele tinha passado e sobre o que ele ainda sentia acerca de literatura, eu soube logo", recorda Walsh. "Mesmo sem discutir, disse-lhe: 'Tens de vir trabalhar connosco.'"

Mais surpreendente ainda foi o número de escritores que o seguiram, mesmo entre aqueles que tinham desertado para outras agências, incluindo Heather Clay, autora de "Losing Charlotte", e Nick Flynn, autor do livro de memória "Mais Uma Noite de Merda Nesta Cidade da Treta". Todos louvam o talento de Clegg para entrar na mente de um escritor, a forma como ele lida com os manuscritos com luvas de veludo e a sua capacidade de negociação com os editores.

"Ele era quase o leitor ideal", diz Salvatore Scibona, que está entre os primeiros autores a assinar novamente com Clegg. Na sua primeira reunião com Clegg num café de Greenwich Village, viram o manuscrito de "The End" página a página, durante oito horas consecutivas. "Ele fez a leitura mais meticulosa do livro alguma vez feita - e não foi nada meigo, diga-se."

Os clientes dizem que Clegg é ele próprio como um escritor - introspectivo e cuidadoso - e nada dado ao habitual pretensiosismo e teatralidade dos agentes. Isso ficou claro quando começou a circular no mundo insular da edição que Clegg estava ele próprio a escrever um livro.

O acordo milionário A maior parte da obra foi escrita na quinta de um amigo, com 35 hectares, perto de Red Hook, Nova Iorque, onde aluga uma casa com outros escritores e artistas. Diz ter-se acorrentado à mesa da cozinha durante três semanas, até ter 130 páginas. "Saiu como se fosse uma transcrição", recorda.

Quando regressou à cidade no fim-de- -semana do Labor Day, imprimiu uma cópia e deixou-a à porta de Walsh. Poucas horas depois de ter voltado de Fire Island, ela metabolizou o manuscrito e enviou- -lhe um email com um plano para cobrir todos os editores de Nova Iorque com uma proposta de livro. Pelo final da semana, Walsh, actuando como agente, tinha conseguido vender o livro à Little, Brown.

Diz-se que Clegg recebeu um adiantamento de 290 mil euros, valor impressionante para uma primeira obra (Walsh não confirma os números). Foi suficiente para sair de Chelsea e, de acordo com os registos públicos, pagar mais de 800 mil euros por um apartamento de uma assoalhada em Greenwich Village, em Outubro passado. Fica na Quinta Avenida, a três quarteirões de distância da sua antiga morada.

Pode ser que Clegg volte a mudar de casa. A Little, Brown assinou um contrato para um segundo livro, com o título temporário de "90 Dias", que explora as semanas difusas que passou em Chelsea após a reabilitação. "Foi um período muito discreto da minha vida e também o mais incrível", diz.

Quando a entrevista no Gansevoort termina, Clegg parece aliviado por não ter havido derramamento de sangue. Entra na casa de banho dos homens para se refrescar e, enquanto espera pelo elevador, conversa alegremente sobre o frango de fricassé que esteve a cozinhar naquela tarde. O segredo, diz, é afundar os pedaços em leite duas vezes, cobrindo-os depois com farinha. Por fim, com o Sol a pôr-se sobre o rio Hudson, veste o casaco e volta a pé para casa. Vários amigos ligados à edição vão aparecer por lá.


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