Em época de crise investe-se muito em ideias. Ainda que muitas vezes estas não sejam mais do que antigos conceitos vestidos de outra forma
Vítor Sobral recuperou recentemente, numa crónica no "
Negócios" sobre as contradições da direita portuguesa, uma citação reveladora de
Margaret Thatcher: "a economia é o método; o objecto é a mudança da alma". Esta frase aplica-se na perfeição a mais uma iniciativa intelectual dos sectores neoliberais portugueses. O
projecto Farol prova que o investimento em ideias prospera em épocas de crise.
Com o patrocínio da multinacional de consultoria
Deloitte, alguns
gestores juntaram-se a alguns
economistas e
advogados de negócios e produziram um manifesto e umas "conclusões preliminares" em powerpoint, como não podia deixar de ser. A
comunicação social tratou de os difundir amplamente. Os lugares-comuns da novilíngua do "
capitalismo empreendedor" disfarçam mal o projecto de submissão total da
sociedade portuguesa a um mundo que é reduzido a uma "plataforma unificada de acção". O mundo, altamente hierarquizado e desigual, não é assim, claro.
O resto, que é o que interessa, vem por acréscimo. A "agenda do
corte fiscal permanente" exprime o desejo de alinhar numa perversa concorrência fiscal, num país com uma carga fiscal abaixo da média da UE e onde os regressivos impostos indirectos, como o IVA, têm um peso excessivo. A lengalenga da
flexibilidade, sobretudo no campo laboral, exprime o desejo de continuar a eliminar direitos e a transferir custos para a maioria dos trabalhadores assalariados na forma de vidas mais precárias e inseguras. Crucial é a
redução do Estado a "um parceiro fiável do sector privado" e a correspondente apropriação de
recursos públicos nas áreas onde está a fruta doce para os novos e garantidos negócios com muita consultoria à mistura:
saúde,
educação,
segurança social ou
infra-estruturas públicas.
Tudo isto é conhecido. Tudo isto é
regressão social com consequências económicas negativas. A economia, uma certa economia em crise, é o método. No entanto, o objecto é mesmo a mudança da "alma". Inadvertidamente, o projecto Farol confirma as teses de
Michel Foucault, expostas, em 1979, em "
O Nascimento da Biopolítica" (livro recentemente editado entre nós pelas Edições 70). A "governamentalidade neoliberal" pretende criar os dispositivos, as condições, para transformar os indivíduos em novos
homo economicus, em sujeitos empresariais desenraizados, adaptados e conformados a um mundo reduzido a fluxos económicos, com mobilidade e concorrência incessantes.
A "educação para a globalização" do Farol sintetiza a engenharia das almas que seria necessária para a utopia do
capitalismo global. Estas consultorias políticas não acabam bem para a maioria. Devemos, por isso, guardar distância destes "faróis", se não queremos afundar em definitivo...
Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas
Actividade em ionline