PRIMEIRO PLANO

Os novos engenheiros de almas

por João Rodrigues, Publicado em 07 de Junho de 2010   
Em época de crise investe-se muito em ideias. Ainda que muitas vezes estas não sejam mais do que antigos conceitos vestidos de outra forma
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Vítor Sobral recuperou recentemente, numa crónica no "Negócios" sobre as contradições da direita portuguesa, uma citação reveladora de Margaret Thatcher: "a economia é o método; o objecto é a mudança da alma". Esta frase aplica-se na perfeição a mais uma iniciativa intelectual dos sectores neoliberais portugueses. O projecto Farol prova que o investimento em ideias prospera em épocas de crise.

Com o patrocínio da multinacional de consultoria Deloitte, alguns gestores juntaram-se a alguns economistas e advogados de negócios e produziram um manifesto e umas "conclusões preliminares" em powerpoint, como não podia deixar de ser. A comunicação social tratou de os difundir amplamente. Os lugares-comuns da novilíngua do "capitalismo empreendedor" disfarçam mal o projecto de submissão total da sociedade portuguesa a um mundo que é reduzido a uma "plataforma unificada de acção". O mundo, altamente hierarquizado e desigual, não é assim, claro.

O resto, que é o que interessa, vem por acréscimo. A "agenda do corte fiscal permanente" exprime o desejo de alinhar numa perversa concorrência fiscal, num país com uma carga fiscal abaixo da média da UE e onde os regressivos impostos indirectos, como o IVA, têm um peso excessivo. A lengalenga da flexibilidade, sobretudo no campo laboral, exprime o desejo de continuar a eliminar direitos e a transferir custos para a maioria dos trabalhadores assalariados na forma de vidas mais precárias e inseguras. Crucial é a redução do Estado a "um parceiro fiável do sector privado" e a correspondente apropriação de recursos públicos nas áreas onde está a fruta doce para os novos e garantidos negócios com muita consultoria à mistura: saúde, educação, segurança social ou infra-estruturas públicas.

Tudo isto é conhecido. Tudo isto é regressão social com consequências económicas negativas. A economia, uma certa economia em crise, é o método. No entanto, o objecto é mesmo a mudança da "alma". Inadvertidamente, o projecto Farol confirma as teses de Michel Foucault, expostas, em 1979, em "O Nascimento da Biopolítica" (livro recentemente editado entre nós pelas Edições 70). A "governamentalidade neoliberal" pretende criar os dispositivos, as condições, para transformar os indivíduos em novos homo economicus, em sujeitos empresariais desenraizados, adaptados e conformados a um mundo reduzido a fluxos económicos, com mobilidade e concorrência incessantes.

A "educação para a globalização" do Farol sintetiza a engenharia das almas que seria necessária para a utopia do capitalismo global. Estas consultorias políticas não acabam bem para a maioria. Devemos, por isso, guardar distância destes "faróis", se não queremos afundar em definitivo...

Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas


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