Entrevista
Alexander Ellis "Portugal é um país viciado na crise por instinto"
por Gonçalo Venâncio, Publicado em 07 de Junho de 2010
Casado com uma portuguesa e adepto do Sporting, o embaixador britânico em Portugal reconhece a capacidade nacional do desenrasca
Alexander Ellis nem pestanejou quando lhe perguntamos em que língua queria dar a entrevista: "Em português", respondeu com o à-vontade de quem "adora Portugal". A assinalar o primeiro mês sobre as eleições britânicas, o embaixador do Reino Unido recebeu o i numa das mais dinâmicas representações diplomáticas do Foreign Office. A horta no jardim e a redução de 25% dos consumos de electricidade já valeram vários prémios de inovação à embaixada - e pode haver mais a caminho. Futebol, relações bilaterais, os desafios do governo de David Cameron e a situação em Gaza marcaram esta conversa de cerca de meia hora.
Nos dias que correm, os políticos britânicos são incentivados a usar os transportes públicos, a bicicleta ou até a ir a pé para o trabalho. Pelo que sei, não é novidade para si?
Não, não é...
Mas é muito mais fácil andar de bicicleta em Londres do que em Lisboa...
É, sem dúvida nenhuma! Eu em Londres já utilizava a bicicleta todos os dias para ir para o trabalho, 45 minutos à ida e 45 minutos no regresso, subindo Acton Hill e passando pelas chip shops [lojas de batatas fritas] até chegar a casa. Em Lisboa é mais duro, mas mais curto.
Estamos a poucos dias do início do Mundial de futebol. Tem expectativas elevadas em relação à selecção inglesa?
A esperança é a última a morrer. E espero bem que não nos apareça Portugal no caminho. Nos últimos anos o nosso currículo não é dos melhores: perdemos em 2000, 2004 e 2006. Mas isso já foi na década passada [risos].
E para o Sporting, que expectativas tem?
É melhor não falarmos disso. Olhemos para o futuro, como dizia a música que acompanhou o New Labour em 1997, "Things Can Only Get Better" [As coisas só podem melhorar].
Presumo que a aliança anglo-italiana esteja nos seus melhores dias...
Quando Fabio Capello foi nomeado seleccionador da Inglaterra, recebi um sms de um amigo meu, louco pelo Inter de Milão, que me disse logo: "Vocês vão pelo menos às meias-finais." A verdade é que na qualificação a selecção jogou muito bem.
Estas pessoas - sejam eles treinadores de futebol, desportistas ou artistas - , não sendo diplomatas, têm um papel importante na relação entre os Estados?
É verdade, trazem com eles uma imagem. Lembro-me muito bem que da primeira vez que acompanhei o presidente da Comissão Europeia a Londres, num discurso sobre África na London School of Economics, a primeira pergunta dos estudantes foi: "O Mourinho é tipicamente português?" Não era exactamente.
Já que falou de Londres, vamos à política britânica. Pergunto-lhe se o escândalo das despesas de 2009 alterou a percepção da opinião pública relativamente aos políticos?
Não posso ser analista do meu próprio país. Mas posso dizer que em quase todos os países desenvolvidos a confiança nos políticos e nas instituições tem baixado.
O Reino Unido não é excepção?
Não conheço excepções. É uma tendência que qualquer líder tem de tentar inverter, embora não seja fácil fazê-lo. Há, em tempo de crise, um grande enfoque por parte do público nos rendimentos dos políticos que, aliás, estão as ser cortados. Um dos aspectos mais chamativos da crise económica e financeira que vivemos é a ganância e neste ambiente as pessoas olham para toda a gente com muito cuidado.
Ganância que, no continente europeu, foi colada ao mundo anglo-saxónico...
As qualidades e os defeitos dos seres humanos não reconhecem fronteiras.
Assistimos a uma eleição que foi considerada histórica. Nestes tempos de crise, uma coligação com diferenças ideológicas tem armas para fazer as reformas e enfrentar a tensão social que se espera?
Cito a primeira frase do acordo de coligação, que também foi a primeira frase do discurso da rainha: "O primeiro dever é reduzir o défice e restabelecer o crescimento económico." Está tudo dito, estas são as prioridades do nosso governo. Como o fazer de forma sustentável? Sobre isso há um grande debate no Reino Unido e em quase todos os países.
No discurso da rainha Isabel II ao parlamento houve uma frase que chamou a atenção: "Um programa radical para um governo radical." Qual é o sentido da palavra "radical": começar tudo do zero ou consertar os erros do passado?
Já sentimos choques radicais no sistema financeiro quando alguns bancos britânicos foram nacionalizados. Isto era impensável há três anos. A verdade é que o radicalismo já chegou. A questão é saber que respostas vão dar as políticas públicas. Seria muito difícil reduzir o nosso défice de maneira tão ambiciosa - como o governo propõe - sem ser radical.
Como se pode cortar nas despesas do Estado sem afectar a pegada política e militar global do Reino Unido?
Durante a campanha eleitoral houve um grande debate sobre o nosso sistema de dissuasão nuclear, o Trident. Será que conseguimos manter o nosso esforço no estrangeiro tendo de cortar na despesa? Somos uma nação do comércio, uma economia grande e aberta, dependente do investimento estrangeiro - a propósito, o ano passado fomos a economia europeia que mais investimento estrangeiro recebeu, incluindo de Portugal.
Falamos de que valores e projectos?
Cerca de 500 milhões de euros. Há de tudo: da eólica offshore da EDP até pequenos projectos muito interessantes como o da Alert, que está a ganhar vários contratos no sistema nacional de saúde. As vossas empresas são interessantes porque têm de se internacionalizar muito rapidamente para sobreviver. Queremos captar esse investimento porque o Reino Unido também pode servir de trampolim para a Índia e outras partes do mundo.
Vamos voltar à questão do equilíbrio entre a despesa e a presença britânica no mundo...
Dizia que somos, e temos de ser, uma economia aberta. Por isso, precisamos de uma diplomacia eficaz. De acordo com o nosso ministro, o Foreign Office tem de ser mais pequeno, mais flexível e mais centrado na acção. Somos um membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, somos um dos maiores doadores de ajuda internacional, e isso obriga-nos a manter a nossa pegada mundial.
Como prevê que a Europa saia desta crise e que papel pode ter Londres?
A resposta à crise tem de ser global, foi isso que o governo britânico anterior fez ao alargar o espaço de discussão aos poderes económicos e políticos, ao G20. Todos os desafios da Europa são semelhantes aos do Reino Unido e isso implica a consolidação das nossas posições em matérias como as alterações climáticas, a eficácia na luta contra a pobreza e a defesa do comércio livre.
Ouvimos no passado muitos empresários britânicos pedirem ao governo para aderir ao euro. Em retrospectiva, Londres fez bem em manter-se fora da moeda única?
É interessante notar que as reacções sobre a crise são opostas. Em Portugal dizem: "graças a Deus temos o euro"; no Reino Unido dizemos: "graças a Deus não temos o euro." Acho que a explicação para isso é evidente. Há um espectro em que de um lado temos a flexibilidade e do outro a segurança. Portugal, por razões que compreendo, aposta mais na segurança e o Reino Unido na flexibilidade.
Veio para Portugal no início dos anos 90. O país desafiou as suas concepções, se é que tinha algumas?
Não conhecia muito bem o país antes de chegar. Conhecia a minha mulher, uma diplomata portuguesa (embora ainda não fosse minha mulher).
Conheceram-se cá?
Não, antes. Foi num seminário para jovens diplomatas. Não tinha preconceitos, mas gostei imenso, e continuo a gostar, do país. Isso não escondo de ninguém. É um país fantástico.
É muito diferente hoje, comparado com essa altura?
Algumas coisas mudaram muito. Outras não.
Desde 2007, altura em que regressou ao país, só há más notícias em Portugal. Como tem acompanhado a nossa crise?
Portugal é um país viciado na crise ("crisófilo") por instinto. Mas também tem grande capacidade de "desenrascanço". É um conceito que não consigo explicar....
Nem tem tradução em inglês...
Não. Não há, não há! [risos] Diria que Portugal não é diferente de qualquer outro país europeu nesta altura. Como costumo dizer, a acção está muitas vezes fora do nosso controlo. Portanto, o que nos define é a reacção. É isso que nos pode levar para cima ou para baixo. Vocês têm uma grande mais-valia no mundo globalizado: a capacidade de adaptação a culturas diferentes. Uma característica que é sempre acompanhada da autocrítica. Acho isso fascinante. Façam uma lista do número de treinadores de futebol que trabalham no estrangeiro e estarão seguramente no top ten. Têm gente no Vietname, na Arábia Saudita, na Grécia. Têm uma grande aptidão para lidar com as outras culturas. No mundo globalizado isso é um grande activo.
O Tratado de Windsor tem 624 anos, é o mais antigo acordo diplomático do mundo. Continua vivo ou é só um pedaço de história?
Na semana passada estive no Refúgio Aboim e Ascensão no Algarve e o Tratado de Windsor vive lá. Há uma grande ligação entre a comunidade britânica e aquelas crianças - nas paredes há fotos do Bobby Robson e do Jimmy Tarbuck. 80 mil britânicos residem em Portugal e mais de dois milhões visitam o país todos os anos. Em Inglaterra há muitos estudantes e empresários portugueses. Os contactos humanos são profundos entre os dois países.
No que diz respeito às relações políticas, e de acordo com a nossa pesquisa, a última vez que a rainha visitou Portugal foi em 1985. Tanto o primeiro-ministro Blair como Gordon Brown só estiveram em Portugal em contextos multilaterais. É assim que se devem relacionar velhos amigos?
Isto é assim precisamente porque nos conhecemos tão bem. A relação é muito profunda e não se reduz às reuniões de ministros: é o comércio, é o conhecimento, a história e a dimensão humana.
A relação bilateral foi afectada pelos casos judiciais dos últimos anos, o desaparecimento de Madeleine McCann e o caso Freeport?
Antes pelo contrário. No caso McCann continuamos a desenvolver esforços para a encontrar e mantemos contacto com a polícia portuguesa.
Como está a acompanhar os acontecimentos dos últimos dias no Médio Oriente?
São preocupantes. Tem de haver um inquérito independente sobre o que aconteceu e também temos de dar um passo atrás e olhar para toda a situação de Gaza. É um sintoma de maior dificuldade em lidar com os problemas de Gaza.
O processo de paz está seriamente ameaçado?
Espero bem que não, espero bem que não. Mas que a situação em Gaza não é sustentável, isso é evidente.
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