Xadrez
Cavaleiros russos combatem pelo controlo do mundo do xadrez
Publicado em 04 de Junho de 2010
Quando Karpov e Kasparov, históricos arqui-inimigos, se unem em torno de uma causa, algo de estranho se passa. Os dois campeões querem destituir Ilyumzhinov, um homem que diz falar com alienígenas, da federação internacional
Sem aviso, os guardas enviados por um alto conselheiro do Kremlin ocuparam uma elegante mansão do período pré-revolucionário num bairro luxuoso de Moscovo na semana passada. Os inquilinos foram mandados imediatamente embora. Parecia que a Federação de Xadrez da Rússia (FXR) estava debaixo de cerco.
O incidente foi o lance mais ousado feito até ao momento numa luta feroz pelo controlo de um jogo que tem sido dominado desde há muitas décadas pelos russos e ainda é uma fonte de orgulho nacional. Mas a superioridade da Rússia tem decrescido nos últimos anos juntamente com o interesse pelo jogo de uma maneira geral. E o combate é acerca de como reverter a queda e restabelecer a autoridade da Rússia no mundo do xadrez.
OS REIS LADO A LADO O conflito levou a uma aliança entre dois ex-campeões do mundo e inimigos, o activista anti-Kremlin Garry Kasparov e Anatoly Karpov, contra dirigentes russos de topo. Karpov chocou o reservado mundo do xadrez russo no início do ano, quando declarou a intenção de tentar a nomeação da Rússia para presidente da Federação Internacional de Xadrez (FIDE) contra o candidato escolhido a dedo pelos dirigentes.
Os jogadores acusaram os dirigentes de corrupção, incompetência e, no caso de Kirsan Ilyumzhinov, um líder regional russo e o actual presidente da federação, de instabilidade mental. Ilyumzhinov, que tem sido ligado ao homicídio de pelo menos uma jornalista, é apoiado na sua tentativa de continuar no cargo por diversos funcionários governamentais de topo, incluindo o presidente do Comité Olímpico Russo e um alto conselheiro do Kremlin, Arkady Dvorkovich.
A PEÇA LOUCA DO TABULEIRO Num país em que os campeões de xadrez são tratados como heróis nacionais, os meios de comunicação russos têm-se agarrado ao conflito com a garra com que os tablóides americanos fazem a cobertura das façanhas de Lady Gaga. Eles têm uma satisfação particular em cobrir Ilyumzhinov, que afirmou ter comunicado com extraterrestres. Ilyumzhinov parece de facto uma escolha bizarra para recuperar os debilitados sucessos do xadrez russo e da Federação Internacional de Xadrez, mais conhecida pelo seu acrónimo francês FIDE, e não apenas por afirmar que foi visitado no seu apartamento de Moscovo por alienígenas do espaço em fatos amarelos.
Nomeado pelo Kremlin líder de uma região empobrecida no sul da Rússia chamada Kalmykia, ele é sobretudo conhecido pela fortuna exorbitante, adquirida de forma misteriosa, e a devoção fanática ao xadrez. Tem dirigido igualmente a FIDE nos últimos 15 anos, presidindo ao declínio no jogo que tanto preocupa os dirigentes russos que apoiam a sua candidatura.
PROVA RAINHA EM CRISE Para Karpov, que foi uma estrela brilhante na era soviética, quando o xadrez servia como uma importante plataforma nas batalhas de propaganda contra o Ocidente, Ilyumzhinov está há demasiado tempo no cargo.
Para o expulsar, Karpov está mesmo disposto a colocar de lado a sua longa rivalidade com Kasparov e a sua própria tendência para evitar a política. Numa entrevista, Karpov disse que Ilyumzhinov tinha provocado prejuízos permanentes ao xadrez e ao acontecimento que destacou o jogo durante décadas, o Campeonato Mundial de Xadrez.
"O prestígio do campeonato diminuiu", diz, acrescentado que Ilyumzhinov "provocou graves prejuízos na autoridade da federação." Para surpresa de muitos na Rússia, a maioria da FXR votou a favor da candidatura de Karpov no mês passado.
PEÕES AO ATAQUE O voto foi seguido por um raide aos escritórios da federação russa feito por seguranças enviados por Dvorkovich, que foi vice-presidente da federação até ao ano passado, quando um decreto do presidente Dmitry Medvedev impediu funcionários do Kremlin de manterem cargos em federações desportivas. Dvorkovich, que ainda lidera o órgão de supervisão da federação de xadrez, afirmou numa mensagem de e-mail que o raide foi necessário depois de uma auditoria ter revelado enormes irregularidades financeiras.
Dvorkovich também escreveu uma carta a outras federações nacionais apelidando a candidatura de Karpov de ilegal e incitando outros países a evitar todas as relações com ele. Não é claro o motivo pelo qual Dvorkovich apoia de forma tão fiel Ilyumzhinov, que tem uma história demasiado dúbia, sobretudo dados os rumores de que Medvedev não o irá reconduzir como líder da Kalmykia quando o seu mandato terminar.
Kasparov e outros sugeriram que os funcionários poderiam estar a tentar manter o silêncio sobre procedimentos pouco claros nos negócios da FIDE.
LIGAÇÕES DIAGONAIS "Na Rússia devemos sempre olhar para os interesses comerciais por trás de quaisquer conflitos públicos", afirmou Kasparov numa entrevista. "As pessoas que estão a cargo das finanças da FIDE vivem em sítios como Atenas. O tesoureiro é das Bermudas - e todos sabem aquilo que os consultores financeiros das Bermudas habitualmente fazem."
Dvorkovich, cujo pai foi exímio jxadrezista, reconheceu parcialmente os falhanços de Ilyumzhinov, dizendo numa entrevista recente à estação de rádio Ekho Moskvy que está "longe de satisfeito" com a gestão da FIDE nos últimos anos.
Mas ele referiu que não podia apoiar Karpov, afirmando na mesma entrevista que mais depressa apoiaria Kasparov do que o seu antigo rival, de quem disse "não é uma pessoa totalmente honesta."
Numa mensagem de email, Dvorkovich explicou que Ilyumzhinov tinha as capacidades de gestão necessárias para levar a cabo mudanças na FIDE. Embora a contribuição de Karpov para o jogo tenha sido "incontestável", referiu, "liderar uma federação internacional requer enormes esforços de gestão e penso que Ilyumzhinov poderá fazê-lo melhor."
A TORRE DE BABEL Independentemente de quem saia por cima, o candidato russo ainda terá de assegurar os votos de uma maioria de membros da FIDE. Apesar da fama de Karpov, Ilyumzhinov construiu larga base de apoio na organização - os críticos sugerem que a comprou - e os seus oponentes dizem que os dirigentes russos podem querer conservá-lo para manter o controlo sobre o jogo.
"Eles estão parcialmente interessados na reputação da FIDE, mas apenas a ponto de controlar a federação e os seus activos materiais e financeiros", escreveu na semana passada Stanislav Belkovsky, um importante comentador político, referindo-se a Dvorkovich, Ilyumzhinov e aos seus apoiantes.
CAVALO DE TRÓIA Dvorkovich e outros afirmaram que gostariam de mudar o quartel-general da FIDE de Atenas para Moscovo, algo que ele afirma que Ilyumzhinov está mais bem preparado para fazer. O recém-eleito presidente do Comité Olímpico da Rússia também referiu que irá procurar incluir o xadrez como desporto olímpico, talvez num esforço para compensar a Rússia pelos seus feitos pouco brilhantes em outras modalidades olímpicas nos últimos anos.
Karpov acusou os dirigentes russos, e em particular Dvorkovich, de fazerem política em detrimento do jogo. A solução é dar controlo aos jogadores. "Venci 16 campeonatos do mundo pela Rússia", diz Karpov. "Lutei pelo meu país. Com todo o respeito por Dvorkovich, que é um conselheiro do presidente em programas económicos , porque pensa ele que sabe mais de xadrez do que eu?"
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