PRIMEIRO PLANO

Os dois PS

por João Cardoso Rosas, Publicado em 28 de Maio de 2009   
Há um PS antes e depois da crise. O primeiro foi de esquerda e muito bem sucedido, o segundo foi mais socializante. E agora?
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Há um Partido Socialista antes da crise económica e um outro depois dela. O primeiro foi extremamente bem sucedido: alcançou o poder com maioria absoluta, restaurou a autoridade do Estado após a experiência tragicómica de Santana Lopes e conseguiu governar pró-activamente. Recordemos brevemente as bases do sucesso do PS anterior à crise. Com a eleição de Sócrates como secretário-geral, o PS continuou a ser de esquerda mas deixou de ser socialista. O partido passou a apresentar-se como uma força reformista e representativa do interesse nacional, contra os "interesses especiais" e, em particular, os dos trabalhadores do Estado e do movimento sindical. Isso permitiu-lhe reduzir o défice público, liberalizar a legislação laboral, reformar a Segurança Social de um modo que a torna mais sustentável mas diminui os direitos dos trabalhadores, racionalizar o sistema de saúde de uma forma especialmente antipopular, modificar as carreiras e os sistemas de governação de escolas e universidades reforçando a hierarquia e debilitando a colegialidade, etc. Para enfrentar as reacções adversas que estas e outras medidas alimentaram, o governo do PS conseguiu sempre apresentar os contestatários como representantes de interesses corporativos.

Dessa forma, as manifestações de rua puderam prosseguir enquanto o PS se mantinha à frente em todas as sondagens.

Porém, inopinadamente, surgiu a crise internacional. Quando o PS pensava poder colher os frutos das reformas que entendia serem modernizadoras da sociedade portuguesa, viu-se a braços com a quebra do produto interno, o desemprego e o pessimismo quanto ao futuro. O governo do PS foi lento a perceber a mudança, talvez porque se recusava a acreditar na sua má sorte. Mas acabou por reagir e por dar origem a um novo partido: o PS pós-crise. Vejamos agora aquilo que o caracteriza.
Tal como outros governos pelo mundo fora, o governo do PS teve de reagir à crise com medidas ad hoc. Mas essas medidas tiveram um inegável sabor socializante: intervenção no sistema financeiro, nacionalização, multiplicação de apoios sociais, etc. Note-se que este socialismo do PS foi involuntário. Ele não fazia parte do programa do PS anterior à crise e surgiu com a necessidade de a enfrentar. Mas este socialismo involuntário necessita de uma fundamentação discursiva, e isso não parece ser um problema para um partido que ostenta a palavra "socialista" no nome, embora tivesse deixado de praticar "a coisa" entre 2004 e 2008. Por isso estão agora criadas as condições para a renovação da confiança com os críticos internos, para o regresso a um discurso fortemente igualitário, para a crítica do neoliberalismo que, de um modo não consciente, estava por detrás de algumas das políticas do PS anterior à crise. Resta saber se o novo PS consegue dar consequência ao novo discurso socialista e se, através dele, poderá repetir no contexto pós-crise o sucesso que teve no ciclo anterior. É o que veremos durante este ano eleitoral.

Professor universitário de Teoria Política



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