Agatha Ruiz de la Prada. "Lady Gaga não devolveu um vestido"

por Pedro José Barros, Publicado em 02 de Junho de 2010   
A estilista esteve no Porto para apresentar o seu novo livro, "A Geografia da Moda Espanhola". Antes falou com o i
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Impossível fingir que não a vemos. À distância, com o seu estilo despreocupado, garrido e com um bouquet de corações a prender--lhe o cabelo. A estilista espanhola Agatha Ruiz de la Prada esteve no Porto e ao i disse admirar a modernidade de Portugal. Orgulha-se de ser a "única desenhadora do planeta com uma colecção de portas e outra de pinças de depilar". TV não vê; tem sempre um livro mais interessante.

Foi muito influenciada por artistas como Miró e Andy Warhol. Como é que estas imagens foram construindo a Agatha?

Quando era pequena, o meu pai era o mais importante coleccionador da sua geração em Espanha. Conhecia todos os artistas, ia aos seus estúdios e eles vinham a nossa casa. Gostava muito de ir a exposições. Já o meu irmão diz que quando era pequeno o que mais odiava no mundo era ver exposições. A mim parecia--me muito divertido, mas ele dizia: "Que horror! Toda a tarde ali sentados. Lembras-te de como o banco era duro?" Eu respondia que não. Conclusão: o meu irmão casou-se com uma mulher rica e tem quadros melhores que eu. E quadros bons. Ele diz que não gosta nada, mas gosta.

De onde surge a inspiração para as suas criações?

De toda a parte. Quando venho a Portugal, por exemplo, é rara a vez em que passo no Porto e me escapa Serralves. Nem que sejam cinco minutos. Sempre que posso, vejo, aprendo e faço. Portugal tem das melhores arquitecturas do mundo. Siza Vieira é um dos meus arquitectos favoritos. Aqui aprendo sempre, vejo sempre uma coisa bonita, está tudo bem desenhado. Acho que as pessoas não se dão conta de como Portugal é moderno.

Começou a sua carreira nos anos 80.

Justamente na época da movida.

Sente-se responsável também por esse movimento?

Não, porque tinha 20 anos. Caí aí por casualidade, mas tive muita sorte em fazê-lo.

E as suas obras também ajudaram a que a movida ganhasse força...

Bom... Acho que sou das que aguentaram. A movida foi um gozo, uma época maravilhosa em Madrid.

Porque é que acha que aguentou?

Houve muitíssimos que morreram por causa da droga e da sida. O período pós-movida foi duríssimo. Almodóvar, por exemplo, já era um personagem muito importante na movida e agora é o segundo espanhol mais conhecido do mundo, porque o primeiro é o cozinheiro Ferran Adrià.

O que mudou na moda desde então?

Nessa altura havia uma total liberdade. A seguir vieram anos negros, que para mim foram um pesadelo. Neste momento só pensamos na crise. A crise tem coisas muito más e tem coisas boas, porque estás tão entretido com ela que nem deprimes.

A sua arte é uma resposta?

A minha moda é muito boa para a crise. Creio que nasci para a crise.

Porquê?

Porque quando estamos em crise precisamos de mimos, de cor e energia positiva e isso é a única coisa que claramente é boa para nós. A minha moda é positividade. Só podemos lutar contra a crise com positividade, porque senão ela arrasta-nos.

Como concilia a noção de conforto com a irreverência estilística?

Para mim a irreverência é importante. Admiro-a. Sempre fui irreverente, faz parte da minha personalidade e da minha maneira de pensar.

Qual foi a peça que lhe deu mais prazer fazer?

Agora estou com uma tontice de peça que me dá um prazer enorme. A semana passada estive em Moscovo, onde fui à melhor loja de portas do planeta. Toda a entrada era espectacular e super-bonita. Quem diria, há dez anos, que ia fazer portas? Sou a única desenhadora do planeta que tem por exemplo uma colecção de portas e uma colecção de pinças de depilar.

O que acha de artistas como Madonna e Lady Gaga?

A Lady Gaga pediu-me uma colecção de vestidos e há um que ainda não devolveu. Vamos ver se depois desta entrevista o devolve. A Madonna parece-me um fenómeno da natureza, uma mulher que sem ser bonita conseguiu ter sucesso. Ambas têm uma força espectacular.

Amanhã vai estrear em Portugal o novo filme de "Sexo e a Cidade".

Nunca vi a série. Sempre quis ver mas nunca vi. Nunca vejo televisão, não preciso de ver, tenho sempre um livro mais interessante que a televisão.

Qual é a tendência para este Verão?

É a cor, a ecologia, ser simpático e bem educado e sair da crise como pudermos [risos].

Já tem dito que muitas vezes é preciso o caos para ser possível criar. Continua a achar que a moda está demasiado presa a uma mentalidade burguesa?

Quando as pessoas te vêem assim vestida, estão a julgar a sua própria forma de vestir. Sentem-se julgadas por ti. Por isso há uma espécie de provocação: quando fazes uma coisa com criatividade estás a destruir algo.


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