Mourinho foi apresentado no Real Madrid com muita pompa e circunstância q. b. Não seria de esperar outra coisa que não um treinador seguro e confiante. Também, de certa forma, humilde. Sabe que chegou ao maior clube do mundo e fez questão de posicionar-se estrategicamente na história: “Eu não tenho história no Real, Raúl tem.”
Primeiro piscar de olho ao peso do Santiago Bernabéu. Alfredo Di Stéfano, presidente honorário do Madrid, esteve na apresentação que Mourinho, e bem, não quis tão espampanante como a de um jogador. No museu do clube o português viu nove taças dos Campeões. Desta vez não se trata de chegar a um Chelsea que não ganhava em casa há 50 anos ou a um Inter que só provara as doçuras da Europa nos idos de 60. Trata-se de chegar onde a exigência está sempre nos limites e cada Liga espanhola não ganha é um fracasso. Cada Champions que não inclua pelo menos final um semi-fracasso.
Com tudo isto pode bem Mourinho, preciosamente ajudado pelos milhões de Florentino Pérez. Resta perceber até que ponto o português terá o director-geral Jorge Valdano do seu lado. O argentino escreve como ninguém sobre futebol e tem ideias muito próprias sobre o que deve ser o espectáculo. Quer ganhar e encantar. Mourinho é infinitamente mais pragmático: quer ganhar, ponto. Se puder fazê-lo a jogar bem tanto melhor, se tiver de consegui-lo com prejuízo do entusiasmo não hesita um segundo. Gosta de fazer a festa no fim. Como ele diz, sem margem para contestações, “são os resultados que dizem quem é o melhor”.
Valdano, rezaram as crónicas, terá estado perto de abandonar o Real nesta nova era florentina. Ficou e para já tem de engolir um sapo campeão europeu, estrela de telejornais e ídolo dos adeptos. Disse o que lhe sobrava: “O meu papel é defender Mourinho, sentimo-nos honrados por tê-lo connosco.” Cristiano Ronaldo, aliás, também teve um processo de aproximação interessante ao treinador, depois de muitas bolas trocadas com azedume quando ambos estavam em Inglaterra.
José Mourinho vai depender muito de Ronaldo, claro, mas é em Valdano que residem as maiores dúvidas: em caso de escorregadela, quanto tempo demorará o argentino a deixar passar avisos e descontentamentos por todos os canais de que dispõe? Em caso de sucesso imediato, como gerirá Valdano a subalternidade em relação a um português mais novo e atrevido?
Mourinho entrou numa nova galáxia e o campeonato espanhol recuperou o estatuto de número um da Europa. Estão lá os principais: Mourinho e Ronaldo de um lado, Guardiola e Messi do outro. Nunca mais começa?!




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