por Monica Davey, Exclusivo i The New York Times, Publicado em 01 de Junho de 2010
Na internet, dava conselhos e dicas a quem se queria matar. É acusado de suicídio assistido em dois casos
Um
enfermeiro norte-americano capaz de criar grande empatia metia conversa na
internet com pessoas que pensavam em se suicidar. Ensinava-lhes quais os melhores métodos. A algumas dizia-lhes que não fazia mal desistirem, que estariam melhor no
Céu. Com outras, fazia pactos de
suicídio. O caso foi descoberto e investigado.
A polícia acabou por descobrir que o enfermeiro, que por vezes se referia a si próprio como Cami e se descrevia como uma mulher jovem, era na realidade
William Melchert-Dinkel, marido e pai de 47 anos residente em Faribault, no
Minnesota, sobre quem pesam agora duas
acusações de auxílio a suicidas.
Tendo em conta os
documentos do processo, Melchert-Dinkel, que recusou, por intermédio do seu advogado, um pedido de entrevista, disse aos investigadores que o seu interesse "pela morte e pelo suicídio podia ser considerado uma
obsessão" e que procurava "o prazer da
caça". Embora as acusações tenham tido origem em duas mortes - uma no
Reino Unido em 2005 e outra no
Canadá em 2008 -, Melchert-Dinkel, que é de facto enfermeiro diplomado, disse aos
investigadores que é provável que tenha encorajado dezenas de pessoas a matarem-se, embora não saiba em quantas dessas acções teve de facto êxito.
A perseguição sinistra e arrepiante vem trazer a lume, nesta era da internet, questões complexas do ponto de vista jurídico e não só. Por exemplo, muitos estados dos EUA têm
legislação que impede o suicídio assistido, mas é raro os casos conhecidos implicarem pessoas que não se encontrem no mesmo quarto (e muito menos no mesmo país) que o suicida ou passem apenas pela fala (em vez de armas ou comprimidos).
Este caso levanta também questões sobre os
limites da liberdade de expressão na internet: como atribuir um grau de culpa a alguém que partilha os seus pensamentos com outra pessoa que diz já estar a pensar em suicídio? E, para quem aconselha as pessoas a porem a ideia de suicídio de parte, este cibermundo em que os mais isolados e vulneráveis são passíveis de ser tocados de um modo muito mais profundo que no passado, constitui uma nova fonte de
preocupação.
Os grupos que lutam para evitar os suicídios comparam as salas de chat de suicídio aos sites "pró-ana", aqueles que pintam a anorexia como um estilo de vida alternativo e não como uma doença. A
Papyrus, uma organização sem fins lucrativos britânica que trabalha para impedir que os jovens se matem, diz que sabe de 39 casos em que um jovem se suicidou depois de ter visitado
salas de chat "pró-suicídio". Os opositores do suicídio garantem ainda que houve recentemente vários casos de pessoas que se mataram em frente à sua webcam enquanto outras assistiam.
Foi graças ao trabalho de detective de Celia Blay, uma cibernauta anónima, que Melchert-Dinkel acabaria por ser acusado, em Abril passado. "Ele era praticamente invisível", diz Blay. "Tentei falar com todos os agentes de polícia que consegui, mas a maioria não quis ter nada a ver com o assunto. O primeiro com quem falei disse-me: 'Se isso a incomoda, desvie o olhar.' A resposta incomodou-me, porque nessa altura já estava convencida de que tinha morrido gente."
Há cerca de quatro anos, Blay, que se descreve como "analfabeta informática", travou amizade na internet com uma mulher jovem em
depressão que tinha entrado num pacto de suicídio. Celia Blay convenceu-a a não levar o projecto avante, mas o incidente fê-la ir à procura do outro que entrava no pacto. Era alguém que se autodenominava Li Dao, outro pseudónimo que, veio a saber-se mais tarde pela polícia, também era utilizado por Melchert-Dinkel.
Ao fazer perguntas num website destinado a pessoas que falavam de suicídio, Celia Blay diz que encontrou pelo menos meia dúzia de pessoas que tinham entrado em pactos semelhantes com Li Dao, um nome recorrente em toda a espécie de websites de suicídio. Célia e uma amiga descobriram o nome e o endereço de correio electrónico de Melchert-Dinkel depois de lhe terem preparado uma cilada em que a amiga se fez passar por alguém que preparava o suicídio e que foi, diz, abordada por Melchert-Dinkel.
Por essa altura, conta a polícia do Minnesota, Melchert-Dinkel já tinha ajudado ao suicídio de Mark Drybrough, de 32 anos, residente em Coventry (Inglaterra). O relatório do médico legista revelou que Drybrough, que sofria de
doença psiquiátrica, se tinha enforcado num escadote em sua casa, em Julho de 2005. O seu computador revelou que tinha perguntado, numa sala de chat de suicídios, como é que uma pessoa se podia enforcar se não tivesse à mão um sítio alto onde pudesse prender uma corda. Segundo a polícia, Li Dao/Melchert-Dinkel tinha dado sugestões sobre a utilização de uma porta.
Em Março de 2008, Nadia Kajouji, de 18 anos, desapareceu do colégio que frequentava em Otava. As autoridades canadianas que investigaram o
desaparecimento descobriram, no portátil de Nadia, que ela tinha estado a falar online com uma pessoa cujo pseudónimo era Cami. Nas mensagens de
correio electrónico analisadas pelas autoridades, as duas concordaram celebrar um pacto de suicídio segundo o qual Nadia Kajouji se atiraria de uma ponte para um rio (tendo em conta a versão das autoridades, a sugestão teria vindo de Cami, para evitar criar grande estardalhaço) e Cami enforcar-se-ia no dia seguinte. Em Abril de 2008, o corpo de Kajouji foi encontrado no rio Rideau.
Por volta dessa data, Celia Blay contactava o
departamento de Polícia de St. Paul através de uma pessoa que conhecia no Minnesota. Blay recorda que nessa altura andava cada vez mais frustrada com o que considera a falta de vontade das autoridades de estudarem o gigantesco processo que ela tinha reunido com base nos relatos de 20 a 30 pessoas com quem tinha falado online. Ao longo do tempo, tentara contar a história numa esquadra perto da sua residência, a um congressista e mesmo às autoridades policiais dos EUA.
Desde pelo menos a década de 1970 que muitos estados dos EUA vêm legislando contra o
suicídio assistido, embora sejam raras as acusações formais. Os casos mais comuns envolviam idosos muito debilitados ou pessoas com doenças terminais e familiares ou profissionais de saúde que achavam estar a ajudar - o tipo de
dilemas éticos que levaram à publicação de leis que autorizam, em certas condições, o suicídio assistido por um médico, nos estados do Oregon e de Washington. No Minnesota foram formalizadas 12 acusações de auxílio ao suicídio desde 1994, ano em que o estado começou a registar essas ocorrências, e cerca de metade resultaram em penas. A
legislação estadual classifica como delito grave o acto de "intencionalmente aconselhar, encorajar ou assistir" outra pessoa que se suicide; as penas podem ir até 15 anos de prisão. Barbara Coombs Lee, presidente da
Comissão de Compaixão e Livre Escolha, que tem defendido legislação como a do Oregon, considera "perfeitamente correctas" as acusações contra Melchert-Dinkel. "Isto é tão gritante, tão claramente errado, que ficaria muito desapontada se a legislação do suicídio assistido não condenasse este tipo de actuação", afirma. "Há uma distinção muito clara entre ajudar alguém a morrer e promover o suicídio desta maneira."
Ainda assim, os peritos jurídicos dizem que há margem para
contestação. Alguns advogam mesmo que a lei do Minnesota pode ser considerada demasiado ambígua ou demasiado lata, a ponto de permitir um tipo de discurso que só não chega à
incitação explícita ao suicídio. As mortes ocorreram noutras jurisdições e levantaram questões potenciais, dizem outros juristas.
Terry Watkins, advogado de Melchert-Dinkel, afirma ser prematuro falar sobre a defesa que tenciona apresentar, mas tornou claro que questionava a própria lei bem como a dissecação das causas que levam a um suicídio, qualquer que ele seja. "Enquanto sociedade, temos de ter cuidado para não começarmos a reunir um
corpus legislativo que proíba coisas como 'encorajamento' sem que haja uma definição clara do que se quer dizer", afirma.
Melchert-Dinkel, que foi presente a tribunal no dia 25 de Maio, no foro de
Rice County, viu revogada a sua
licença de enfermagem e foi proibido de aceder à internet enquanto decorre o
julgamento. Exercia enfermagem desde 1991, apesar de um historial de acções disciplinares por ter deixado um paciente de uma
casa de repouso sem cuidados, ser demasiado duro, dormir nas horas de serviço, não ter registado sinais vitais e não ter acompanhado a medicação de um paciente. Mas Watkins diz que o seu cliente no fundo é uma boa pessoa. "Não se trata de um monstro", afirma.
Pouco depois de a polícia ter interrogado Melchert-Dinkel no ano passado, este dirigiu-se a um posto de urgência local, conforme se vê nos
registos estaduais, dizendo que estava viciado em sites de internet sobre suicídio e sentindo-se culpado pelos conselhos que tinha dado a pessoas no sentido de acabarem com as suas vidas. Não obstante, a determinada altura do
interrogatório que lhe foi feito pelos investigadores, "ele declarou que só tinha encorajado o suicídio" e que "nunca tinha dito às pessoas que se suicidassem, dizendo-lhes apenas que isso era com elas", segundo informações de fonte policial.
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