PRIMEIRO PLANO

Por quem o sino dobra?

por João Rodrigues, Publicado em 31 de Maio de 2010   
O liberalismo económico não será capaz de nos tirar da crise porque é incapaz de fazer reformas significativas. Mas há outros caminhos
Opções
a- / a+
Uma imagem da semana passada diz muito sobre os sombrios tempos que correm: Teixeira dos Santos, rodeado de alguns dos milionários gestores dos grandes grupos económicos com poder político e de mercado em Portugal, onde se destacam os banqueiros do costume, toca o sino que abre o dia de negócios em Wall Street: é "dia de Portugal" na praça norte-americana. O governo age cada vez mais como se fosse o comité-executivo dos negócios do capital financeiro (para retomar e adaptar a caracterização de Marx e Engels). Privatizações maciças e austeridade orçamental socialmente selectiva, que atinge sobretudo as classes populares, fazem agora parte do esforço para seduzir precisamente os que causaram a última crise global.

Na ausência de movimentos sociais de contestação significativos, o poder das finança garante que, ao contrário do que aconteceu no contexto da Grande Depressão dos anos trinta, a actual crise, que também começou num sistema financeiro inspirado pelo liberalismo económico, não dará origem a reformas significativas, mas apenas a meros toques de regulação que deixam as destrutivas estruturas da finança de mercado intocadas. Novas, e mais violentas, crises financeiras, acompanhadas de destruição de emprego, no contexto de desigualdades sociais abissais, resultarão desta estranha miopia política. Se tudo correr mal, se assistirmos impávidos à destruição do Estado social e da esfera pública, bem como à erosão dos direitos laborais, arriscamo-nos a regressar, em novos moldes, aos padrões identificados pela economia política crítica no século XIX.

Curiosamente, as principais potências emergentes - da Índia à China - não copiaram, apesar das pressões, todos os delírios neoliberais do "Ocidente" no campo das finança. O crédito, no essencial, passa por bancos públicos, há controlos de capitais e a regulamentação do sistema financeiro é muito mais apertada. Nada que não existisse na Europa, e em menor grau nos EUA, até à década de 80. O controlo político das finança tinha aí contribuído para a democratização e ampliação da esfera pública, tornando o Estado um campo de disputa e de negociação e desacreditando a ideia de que este seria um mero instrumento das classes dominantes, ao mesmo tempo que se asseguravam níveis de crescimento superiores e mais bem partilhados.

Neste contexto de regressão, o movimento a favor da taxação internacional das transacções financeiras, em geral, e a petição promovida pela ATTAC (http://attacportugal.blogspot.com), em particular, enviam um sinal aos poderes públicos: está na altura de os governos deixarem de tocar o sino de Wall Street...

Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas (www.ladroesdebicicletas.blogspot.com)


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close