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Pop Dell'Arte. "Até hoje não houve outra banda como esta"

por Tiago Pereira , Publicado em 29 de Maio de 2010   
O grupo comemora 25 anos com a edição de um novo álbum. João Peste e Zé Pedro Moura falam de passado e presente. O futuro é "complicado"
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"Pode entrar e fique à vontade. O João vem já, ele foi só ali abaixo cortar o cabelo. Enquanto espera pode ouvir o que quiser." E estamos nós na sala que acolhe estudos e reflexões de João Peste, ícone pop em português, exemplo de criatividade e risco libertino. O sofá está junto à janela, com vista para uma avenida no centro de Lisboa. De um lado, os concertos para violino de Mozart. Do outro, Franz Ferdinand e uma colecção de Fellini em DVD. Por toda a parte, livros de história e antropologia. Esquecemo--nos que estamos aqui para entrevistar os Pop Dell'Arte, visionários que transformaram as artes de consumo em obra cantada, que o fazem desde 1985. Este ano comemoram um quarto de século e preparam a edição de um novo álbum para 14 de Junho. Título: "Contra Mundum". Esquecemo-nos de tudo isto até que Zé Pedro Moura, outro dos elementos fundadores do grupo, entra na mesma sala, com o novo disco pronto: "Está aqui, está feito, desta vez está tudo marcado."

João Peste chega com um pedido de desculpas: "Tenho tudo desarrumado, tive um exame há poucos dias e ainda está tudo espalhado." Papéis no lugar e "Drumming", de Steve Reich como música de fundo. São assim os Pop Dell'Arte, atentos aos seus gostos, às suas artes e às actividades paralelas que os rodeiam. "Por isso 15 anos desde o último álbum, 'Sex Symbol'. E já foi há oito que editámos o 'So Goodnight' [EP de 2002]". Regularidade nunca foi palavra de ordem no léxico desta gente mas não porque cultivam um gosto sórdido pelas pausas no percurso do grupo. João Peste lembra: "Nunca houve uma estrutura, uma máquina que nos obrigasse a trabalhar de determinada forma." E, apesar disso, Pop Dell'Arte é marca registada que o público reconhece com distinção, mesmo que a obra nunca lhe tenha passado pelos ouvidos.

Os responsáveis pela mesma concordam e lançam justificações para o fenómeno. Zé Pedro Moura tem a frase certa: "A história desta banda vale muito mais que a simples soma dos seus discos e das suas canções." E João Peste arrisca afirmar que os Pop Dell'Arte servem mesmo de exemplo para uns e outros. E aqui não se fala de heranças artísticas - nas palavras de Peste: "Até hoje não houve outra banda como esta, talvez sejamos difíceis, talvez tenhamos uma personalidade vincada de mais para que isso realmente aconteça." É tudo uma questão de integridade. "Nunca nos vendemos", diz o líder e vocalista. "Talvez isso tenha tido consequências, provavelmente influenciou o caminho que fizemos e o que alcançámos." E então? Para quem quis "fazer revolução" e coleccionou atributos como "subversivos" ou "insatisfeitos", o sucesso em massa nunca seria boa opção.

Há 25 anos Recordemos as memórias que explicam esta filosofia de vida pop. Início dos anos 80. Juventude dividida entre Campo de Ourique e afazeres escolares do Liceu Pedro Nunes ao ISCTE, a descobrir gostos e vontades com a movida de 80 a ditar destinos. "Depois do 25 de Abril, havia uma vontade enorme de fazer coisas, simplesmente fazer", recorda Peste. "Toda a gente tinha de ser algo: músico, actor, estilista, designer, fotógrafo..." Os Pop Dell'Arte misturaram tudo enquanto se passeavam pelo Bairro Alto. Porque tudo era aparentemente possível a qualquer momento. "Havia um concerto surpresa da Sétima Legião na Jukebox? A sala enchia, sem internet nem telemóveis", explica José Pedro Moura. E as bandas nasciam frente ao palco do Rock Rendez-Vous (RRV). No caso dos Pop Dell'Arte, enquanto tocavam os Chameleons: "Foi aí que conheci o Zé Pedro, a 1 de Dezembro de 1983. Tinha eu uns 20 anos, o Zé uns 16." Uma banda, ensaios, música europeia e alternativas "descobertas através de arqueologia discográfica". Novas tecnologias, samples, loops e uma produção que piscava o olho às artes do cinema. Resultado: a participação na segunda edição do concurso de música moderna do RRV, em 1985, e um zero redondo de Rui Veloso, jurado nesse ano. João Peste nem precisa de nos falar dos porquês. São os mesmos que, 25 anos depois, motivaram o regresso ao estúdio e, mais uma vez, estão espalhados pela tal sala de sofá junto à janela: dadaístas e John Coltrane, Beethoven e Arvo Pärt, uma cartola e o computador portátil mesmo ao lado. João Peste: "Não se trata de fazer o novo, trata-se de adaptar, de colar, de juntar mundos distintos. Como fizemos com a música ou com a filosofia da Ama Romanta [editora criada pela mão de João Peste]."

Hoje tudo isto acontece de forma mais calma. Tempos houve em que a vida era um circo rock'n'roll. "Entre os anos 80 e 90, Lisboa tinha festas, raves e novas drogas, como o ecstasy. E tudo o que vivíamos e fazíamos artisticamente falando estava relacionado com essa envolvência. Prefiro chamar-lhe um período mais psicadélico", diz-nos João Peste. A febre passou e tudo ficou mais arrastado, menos intenso. A ansiedade de um disco novo fica sobretudo para quem o espera, não para quem o fez. Zé Pedro Moura admite algum nervosismo mas João Peste é pragmático: "Demorámos quase dois anos para aqui chegar, interrompemos as gravações, fracturei duas vértebras... Estou-me nas tintas para as reacções, prefiro pensar num próximo álbum."


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