Madeira é a primeira zona da Europa livre de transgénicos
por Sandra Pereira, Publicado em 29 de Maio de 2010
Excepção concedida por Bruxelas passou despercebida. Comissão Europeia rejeita polémica, mas medida pode abrir precedente
A Madeira é a primeira região da Europa que Bruxelas autorizou a impedir o cultivo de organismos geneticamente modificados (OGM). Uma decisão inédita, mas não tomada preto no branco: a Comissão Europeia (CE) deixou expirar o prazo, a 4 de Maio, para chumbar o pedido do Governo Regional da Madeira, que manifestou receio que o cultivo de transgénicos ponha em risco a biodiversidade e a laurissilva, reconhecida pela UNESCO como Património Mundial desde 1999.
A notícia foi dada pelo jornal norte- -americano "The New York Times", que associou o silêncio de Bruxelas a um mal-estar no seio da União Europeia pelo facto de abrir um precedente polémico, já que outras regiões europeias podem exigir o mesmo que a Madeira. "Foi uma decisão política da CE. A nossa posição sobre os transgénicos evoluiu", explicou ao i o porta-voz do comissário europeu para a Saúde e Protecção dos Consumidores, John Dalli. Em Julho, a CE "vai apresentar uma proposta para que a decisão de cultivo de OGM seja tomada pelos estados-membros" e, deste modo, "pôr fim à situação de bloqueio causada pelas diferentes posições", confirmou Frédéric Vincent.
Dos 27 países, apenas cinco, incluindo Portugal, autorizam o cultivo de transgénicos. Para contornar as regras comunitárias, estados como a França, a Áustria e a Grécia submeteram moratórias à CE. Sobre eventuais novos pedidos, Vincent rejeita polémicas: "Todos os estados sabem que a CE relançou o debate e haverá um novo texto até ao Verão. A excepção concedida à Madeira abriu um novo debate, não causou mal-estar".
Na Madeira, a medida também passou despercebida, sem declarações oficiais, nem festejos do governo de Alberto João Jardim. O i tentou contactar o secretário Regional do Ambiente e Recursos Naturais, Manuel António Correia, sem sucesso. Para o madeirense e dirigente nacional da Quercus, Hélder Spínola, "o governo regional pode estar à espera de mais certezas do ponto de vista formal e burocrático da CE". Esta posição favorável "pode ser uma mais-valia para garantir que os produtos biológicos madeirenses não são contaminados por OGM, considera o ambientalista. Spínola diz que a abertura de um precedente é inevitável: "Existem muitas zonas interessadas em serem livres de transgénicos. Por isso é que a CE não quis fazer publicidade."
Para Margarida Silva, da Plataforma Transgénicos Fora, "os municípios portugueses deviam aproveitar esta janela de oportunidade para pressionar o governo". Cerca de 30 câmaras portuguesas declaram-se zonas livres, mas sem força legal. Para a bióloga, Bruxelas quis "mostrar boa-fé", mas no fundo espera que "os países contra os OGM permitam mais facilmente importações de transgénicos na Europa", atendendo às expectativas dos EUA. Segundo o "The New York Times", a Autoridade de Segurança Alimentar Europeia recomendou que as pretensões portuguesas fossem ignoradas por não existirem evidências científicas sobre riscos para a saúde animal, humana ou ambiental.
Em Março, Bruxelas autorizou o cultivo da batata geneticamente modificada da empresa alemã BASF e a comercialização de três variedades de milho transgénico do grupo Monsanto.
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