Presidenciais

Conservadores chocados com Cavaco. Reeleição em risco?

Publicado em 28 de Maio de 2010   
Cardeal de Lisboa disse à Renascença que se tivesse usado o veto Cavaco "ganhava as eleições". A desilusão católica é profunda
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"Já não lhe exigíamos que fosse tão longe como o rei da Bélgica, que abdicou por um dia para não assinar uma lei que não queria assinar. Mas se o fizesse [o veto] ganhava as eleições." A frase é do cardeal-patriarca de Lisboa, em entrevista ontem à Rádio Renascença e é um espelho contido das profundas divisões no eleitorado católico. O choque pela promulgação do casamento entre homossexuais no seio de algum eleitorado natural de Cavaco Silva vai ao ponto de alguns questionarem se o Presidente da República (PR) não pôs em causa a reeleição.

O cardeal contesta a decisão, mas também os fundamentos da comunicação ao país de Cavaco: "Temos muita dificuldade em ver como é que um veto político vinha prejudicar a crise. Aquela relação lógica causa-efeito não me convenceu. Mas para mim o argumento principal não era o da eficácia política, era um gesto dele como pessoa, como PR que foi eleito pelos portugueses e pela maioria dos votos dos católicos portugueses, que se distanciasse pessoalmente: quando assinasse, era mesmo porque tinha de ser e naquela altura não tinha de ser".

Paulo Rangel, eurodeputado do PSD, católico, está consciente de que a decisão "caiu muito mal no eleitorado católico". Em alguns casos, tornou-se um drama. Embora Rangel defenda a decisão de Cavaco, acha que "vai prejudicar seguramente o apoio dos sectores conservadores e mais agarrados aos princípios". "Não há dúvida que há um sector que faz parte do seu eleitorado nuclear que esperava uma posição de princípio e entende que a matéria o exigia". "Eu acho a posição do Presidente adequada, mas há muita gente a pensar o contrário", diz Rangel ao i, considerando que a decisão "criou feridas", mas que até às presidenciais podem ser saradas devido ao pragmatismo do eleitorado. Mas Santana Lopes, na entrevista de hoje ao i, afirma que a reeleição pode estar em risco e admite não votar Cavaco (págs. 22 e 23).

João César das Neves, professor de economia da Universidade Católica, foi conselheiro de Cavaco em São Bento. Acredita que a promulgação do casamento gay "terá certamente bastante influência nas Presidenciais e será muito negativa". "Penso que o PR perdeu muitos votos com a decisão e não terá ganho nenhum. Não sei qual a dimensão desse efeito, porque ainda falta muito tempo e as questões em debate na eleição serão muito mais vastas. Mas terá efeito importante e não é positivo para a eventual recandidatura", afirma ao i em resposta enviada por e-mail.

César das Neves afirma-se "muito desiludido" com a decisão. "Não tanto pelo resultado final (a lei seria reaprovada no Parlamento), mas pela (falta de) tomada de posição pessoal do Presidente". E o professor de Economia acha mesmo "possível" que venha a surgir um novo candidato presidencial à direita.

Um texto do padre jesuíta Vasco Pinto de Magalhães, com influência nos intelectuais católicos, está a ser passado de e-mail em e-mail: "Senti um arrepio, quase vómito, quando acabei de ouvir o Prof. Cavaco Silva. Que vergonha, senti. Por ele, claro. E pelo país. Assim ficou para a história como o padrinho (the best man) dos homossexuais, por incoerência da sua decisão, quando poderia ter passado à História como alguém que sem disfarce piedoso e paternalista segue as suas convicções, independente de votos e oportunismos". O padre diz que o título mais correcto para o seu texto seria "A pirueta da triste figura". "Seria bem preferível que, sem mais, tivesse promulgado o tal 'casamento', porque sim, porque assim o achava. Mas vir dizer a todo um país que ele pensou bem e não está de acordo e deu provas disso (...) e, depois, num salto mortal, conclui ao contrário e promulga! O dito por não dito. Claro, arranjou duas 'razões'. Falsas. E uma delas é ofensiva da dignidade e inteligência de um povo: estamos tão em crise e tão miseráveis que não nos podemos distrair com este tipo de debates! Ora, estes temas humanos é que são sérios, até porque a verdadeira crise é de valores".

Luís Nobre Guedes, antigo dirigente do CDS, afirma ao i que o texto de Vasco Pinto de Magalhães "traduz bem o que vai na alma de muitos de nós". "O que seria normal era surgir um candidato da direita. Mas era no dia seguinte. Era aquilo que num país normal seria normal acontecer. Agora, se não apareceu, já não vai aparecer. Isto mostra bem o estado catatónico em que alguns sectores estão".

Mas para Marcelo Rebelo de Sousa, Cavaco não sai prejudicado. Admite que possa "ter existido um descontentamento nos sectores mais conservadores do PSD e no CDS/PP, que tem estado muito calado, mas não há espaço nem condições para o aparecimento de outro candidato de direita". "Cavaco é o candidato indiscutível. E não acredito que a sua decisão lhe custe votos, nem provoque uma segunda volta. Na hora da verdade, as pessoas vão votar nele". Já Ribeiro e Castro, ex-líder do CDS, acha que "há muitas pessoas que estão profundamente desapontadas e fizeram um ruptura interior com Cavaco Silva". "Não me recordo de uma situação em que tão próximo de umas presidenciais os cenários fossem tão voláteis à esquerda e à direita", afirma ao i.

O médico católico Roque de Cunha Ferreira, ex-administrador da TVI, recorda que na visita papal "o PR fez o possível e o impossível para se colar ao eleitorado que veio a desiludir. À vista da posição que tomou, é de uma hipocrisia monumental", critica.


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