Austeridade corta crescimento português para metade em 2011
Publicado em 27 de Maio de 2010
Portugal deverá crescer abaixo de 1% nos próximos dois anos, diz OCDE. Se as políticas não mudam, temos mais uma década perdida
São as primeiras previsões de uma grande instituição internacional depois do reforço da dieta orçamental - e não mostram uma boa imagem. A economia portuguesa vai crescer abaixo de 1% até ao final de 2011, um ritmo que não conseguirá reduzir de forma visível o actual nível recorde de desemprego, indica a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), um centro de investigação económica para países desenvolvidos. No anual World Economic Outlook, apresentado ontem em Paris, há ainda uma previsão mais séria, já feita pelo FMI: se o poder político não tiver coragem para fazer reformas, Portugal estará a entrar agora em mais uma década perdida, com crescimento abaixo da magra média europeia de 1,5% até 2025.
"No caso de Portugal há uma dupla questão: uma dívida elevada no sector público, mas também no sector privado [famílias e empresas] - a correcção nos dois lados reforça as forças no sentido recessivo", explica ao i Luiz de Mello, conselheiro do gabinete do economista-chefe da OCDE. "Vão ser anos difíceis e há que sublinhar que a saída está no desafio de enfrentar reformas estruturais no mercado de trabalho, na educação e no mercado de produtos que ajudem a recuperar a economia", acrescenta, admitindo que a tarefa não será fácil com governos minoritários.
A curto prazo - 2010 e 2011 - o reforço da consolidação orçamental vai pesar na economia e na criação de emprego, embora, diz a OCDE, o cenário de recessão não seja o mais provável, tal como no resto da zona euro. Portugal passa a ter uma previsão de crescimento de 1% este ano e 0,8% em 2011 (metade do previsto em Novembro), com uma taxa média de desemprego de 10,6% (o nível atingido em Março) e 10,4%, respectivamente. A OCDE reconhece a dificuldade da situação social, mas considera que o apertar de cinto nas finanças públicas era inevitável.
"O país está entre aqueles em que há situações mais graves de dívida e défice e em que o ajustamento das contas é mais importante", sublinha Luiz de Mello. No relatório, a OCDE identifica o aperto no financiamento externo como o maior risco para a economia portuguesa e dá a entender que evitar essa situação pode não estar nas mãos dos portugueses. "Se as medidas necessárias de consolidação orçamental não forem implementadas ou se o contágio de problemas noutros lugares for claro, as condições de financiamento para o sector público e privado podem deteriorar-se de forma significativa, com consequências potencialmente graves para a economia", lê-se no relatório.
Para a parte que depende de Portugal, a OCDE recomenda assim que se recorra a um arsenal vasto de medidas. "Reduzir a despesa fiscal [ou seja, os benefícios e deduções fiscais] é uma grande avenida para aumentar a eficiência da cobrança fiscal", aponta.
O exercício para a frente O diagnóstico desta organização não difere de outros já feitos (pelo FMI) e indica que todos os motores da economia estão gripados: consumo privado (pela combinação da subida de impostos e juros, desemprego e dívida alta), investimento (pela dieta pública e pela falta de confiança das empresas) e exportações (o que ainda puxa a economia, embora enfraquecida pela perda contínua de competitividade e pela anemia dos nossos maiores clientes externos).
Perante o cenário a OCDE faz uma projecção a longo prazo: se nada mudar nas políticas, Portugal crescerá a um ritmo médio de 1,3% entre 2012 e 2025, o mais baixo da zona euro. A estagnação na criação de novos empregos será total (resultado acompanhado por vários países da OCDE). A confirmar-se, este seria o mais longo período registado de estagnação em Portugal, cuja economia está parada há dez anos.
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