EDITORIAL

Não há Estado que lhes acuda

por Francisco Camacho, Publicado em 27 de Maio de 2009   
Portugal esquece os seus pobres. Depois lá acorda para a dimensão obscena deste problema. E volta a adormecer. Até quando?
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Há dois milhões de pobres em Portugal. O número não é novo. Há quase uma década que sabemos da existência de uma fatia obscena de portugueses com este nível de vida tão pouco europeu. Mas sempre que tropeçamos neste facto há um espanto que se recupera. Como se o tempo decorrido desde a última vez que nos confrontámos com a dimensão desse mundo de excluídos (o equivalente ao dobro da população de Lisboa) nos tivesse permitido ignorá-lo.

Já foi mais fácil varrer a pobreza à nossa volta para baixo do tapete. Lisboa, até meados dos anos 90, tinha os maiores complexos habitacionais degradados da Europa - vulgo bairros de lata, que se estendiam por quilómetros sem fim nas franjas da capital, onde os pobres estavam bem escondidinhos. Só assim foi possível que, a esse país feio e imundo, se tenha sobreposto uma alucinação generalizada de progresso repartido que foi assegurando a tranquilidade das melhores consciências. Mas nos últimos anos, com a queda de fronteiras decorrente dos realojamentos e ainda com o agravamento da economia, a pobreza impôs-se como uma fractura exposta. Alguns dos seus efeitos colaterais (crime, para começar) ajudou a dar- -lhe visibilidade. Já não é possível assobiar para o lado.

O problema, que nos devia envergonhar, ressuscita em períodos eleitorais. Só o PCP está em permanente alerta vermelho contra as chamadas desigualdades sociais. Mas o alerta, de tantas vezes accionado, já não desassossega. Ainda que o lobo nunca tenha deixado de rondar as ovelhas.

O estudo "Portugal Coeso", do Instituto Sá Carneiro, que o i revelou ontem, aparece nesta altura pouco inocente. É das reflexões contidas no documento que sairá uma parte do programa eleitoral para as legislativas de um partido co- -responsável pela crónica falta de empenho do poder na luta contra a pobreza: o PSD. Dito isto, o estudo tem o mérito de relembrar que nenhum país vai no bom caminho quando um quinto da população continua privada de viver com o mínimo de dignidade; que nenhum povo encara o futuro com esperança quando 33% dos cidadãos com menos de 17 anos e 84% dos que têm mais de 65 são pobres - mesmo com as transferências sociais, um terço desse idosos permanece pobre. Não há Estado que lhes acuda.

As propostas do PSD contra esta tendência depressiva são genericamente bem-intencionadas - além de aparentemente hábeis. O partido chama a si uma cruzada da qual a esquerda se apropriou, com menor ou maior razão histórica, e que pode ajudar a marcar a diferença para o momento político assexuado que os socialistas atravessam. Mas também não é caso para aleluias, para pensar que, agora sim, há um partido de poder claramente decidido "a dar aos que mais necessitam". A culpa da descrença não é do PSD nem do PS. Os partidos políticos são o reflexo de um povo. Ora os portugueses estão, pelo menos desde o século 16, conformados com a própria miséria - e ainda mais conformados estão quando a pobreza não lhes bate à porta. Num país onde até há três ou quatro décadas havia muita gente descalça nas ruas não seria de esperar outra coisa. Os pobrezinhos são figuras do mais triste e enraizado folclore nacional. Não são doença, são comichão. Ninguém os leva o sério. Até quando?

 



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