Investimentos
Venezuela. Sócrates visita Chávez para desbloquear acordos
por Ana Suspiro, Publicado em 26 de Maio de 2010
Mota tem projecto de 500 milhões parado. Grupo Lena tem casas por construir. Sá Couto só vendeu 350 mil Magalhães do milhão que acordou
Portugal quer aproveitar a visita de José Sócrates ao Brasil e à Venezuela para tentar desbloquear alguns negócios de empresas portuguesas no país de Hugo Chávez e que marcam passo desde o ano passado. Numa viagem oficial que começa amanhã e tem como principal destino o Brasil [ver caixa ao lado], o primeiro-ministro terá um encontro no sábado com o presidente venezuelano onde serão assinados mais acordos. No entanto, a passagem de Sócrates por Caracas já está a ser preparada pelo governo há vários dias.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, esteve no passado fim-de- -semana na Venezuela e o secretário de Estado do Comércio, Fernando Serrasqueiro, que coordena as relações económicas com o país, está lá desde sábado. O objectivo oficial é o reforço da cooperação económica com o país, a criação de mais oportunidades de exportação para as empresas nacionais e ainda a assinatura de acordos comerciais em novas áreas. Mas Luís Amado admite que há dificuldades. "Nem tudo tem corrido como previsto", comentou, à Lusa. "É preciso continuar a trabalhar no sentido de clarificar alguns acordos que entretanto foram firmados e outros em perspectiva, tendo em consideração a visita do primeiro-ministro."
500 milhões congelados Um dos projectos que estão parados é o contrato para a reconversão do porto de La Gauira, a principal infra-estrutura de abastecimento à capital do país. O investimento anunciado em 2008 ascendia a cerca de 500 milhões de euros, mas só foi contratada uma componente de projecto avaliada em nove milhões de dólares. O presidente executivo da Mota-Engil, Jorge Coelho, confirmou ao i que as obras não avançaram, mas admite que tem havido algumas movimentações recentes. A Mota-Engil tem 26% do consórcio apenas composto por empresas nacionais e que é liderado pela Teixeira Duarte.
Embora não tenha sido possível falar com esta construtora, no relatório de 2009 a Teixeira Duarte explica as razões dos atrasos nos projectos da Venezuela. A reorganização política operada na Venezuela em 2009 trouxe revisões na abordagem das prioridades a atender nos projectos contratados em 2008, facto que levou a um abrandamento dos projectos. A Teixeira acredita que em 2010 está aberto o caminho para a retoma da produção, sobretudo a partir do segundo semestre, mas alerta para as condicionantes de natureza financeira e que se prendem não só com a crise, mas também com a queda do preço do petróleo - maior riqueza do país -, que tem comprometido a concretização de investimentos públicos na área das infra-estruturas.
Habitação social Outro dos projectos aparentemente parado é a construção de habitação social. O acordo anunciado com o Grupo Lena (dono do i) em 2008 previa a construção de até 50 mil fogos naquele país, 15 mil numa primeira fase. Só este acordo podia chegar aos dois mil milhões de euros e previa a instalação de uma fábrica no país. Segundo noticiou o Expresso em Março de 2009, o negócio ficou em risco depois da Venezuela ter revisto em baixa o seu orçamento após a descida do preço do petróleo. Na altura, Mário Lino, ministro das Obras Públicas, admitiu atrasos.
Contactada, fonte oficial do grupo de construção avançou que "nesta fase" não tem "desenvolvimentos significativos a indicar em relação ao contrato existente". A empresa "aguarda com expectativa o desenrolar da próxima deslocação oficial do governo português", manifestando-se "completamente disponível para colaborar no sentido de encontrar as melhores soluções que permitam a concretização do(s) projecto(s)".
Petróleo Os vários acordos comerciais entre os dois países foram assinados em 2008 na sequência de visitas oficiais de Sócrates à Venezuela e de Chávez a Portugal. Os principais negócios então anunciados representavam cerca de três mil milhões de euros para as empresas nacionais. O principal acordo, e que foi recentemente renovado, previa o fornecimento de 30 mil barris/dia de petróleo por dia a Portugal. Um terço desse petróleo seria usado para pagar as exportações para o país. E foi à luz desse contrato que as relações comerciais entre os países dispararam, com saldo favorável para Portugal. Segundo informação dada ao i pela Galp, Portugal tem recebido dois milhões de barris de crude venezuelano por ano e em 2010 já está previsto mais um carregamento de um milhão.
A energia foi aliás o sector que concentrou mais acordos com a Galp, e também a EDP, para áreas que vão desde a exploração de petróleo na faixa do Orenoco, até à construção de duas centrais de gás natural liquefeito no país - investimentos ainda em avaliação - até à construção de parques eólicos na Venezuela.
Magalhães lá vai indo Mas a grande estrela das exportações nacionais para o país de Chávez foi o computador Magalhães. O acordo noticiado em 2008 com a empresa JP Sá Couto previa a venda de até um milhão de computadores para a Venezuela, o primeiro destino da exportação do produto. Estava previsto ainda um contrato de assistência técnica e manutenção de 50 milhões de euros. A empresa confirmou ao i que, desde então, foram entregues 350 mil computadores, "e estamos agora a negociar a entrega da segunda tranche", disse ao i, João Paulo Sá Couto. Com Miguel Pacheco
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