Bolsas em queda. O que dantes era bom afinal agora é mau
por Luís Reis Ribeiro e Bárbara Barroso , Publicado em 26 de Maio de 2010
Bolsas estiveram semanas a exigir medidas mais duras contra a crise. Agora que as têm dizem que é mau
Há cerca de duas semanas, quando foi anunciado o megafundo monetário europeu de 750 mil milhões de euros, a bolsa portuguesa viveu o dia mais feliz de sempre: o índice PSI 20 subiu mais de 8% num só dia, um recorde histórico. Depois de se saber que haveria entendimento entre governo e PSD a favor de um plano de austeridade nas contas públicas, o ânimo bolsista também recuperou.
No entanto, foi uma questão de semanas para que o mundo dos mercados tornasse a mudar: ontem a bolsa deslizou porque afinal os planos contra os défices anunciados pelos governos europeus até podem ser perigosos para a recuperação económica, disseram vários analistas ao i.
O PSI 20 caiu quase 3%, para 6623,32 pontos, acompanhando uma tendência observada em toda a Europa. A Zon tocou no valor mais baixo em quase oito anos, a Sonae foi o título que mais perdeu no dia (-5,26%) e o balanço só não foi pior porque a PT segurou as pontas com um recuo de apenas 0,56%.
Lá fora, o sinal negativo também foi a constante. Os investidores estão preocupados com a situação em Espanha, depois de as autoridades terem decidido salvar mais uma instituição (CajaSur) da falência e dos alertas severos do Fundo Monetário Internacional relativamente à sustentabilidade da economia, a quarta maior do euro.
O índice de Espanha (Ibex 35) caiu 3%, o FTSE inglês seguiu de perto com 2,5%, o CAC francês idem, com menos 2,9%, e o DAX alemão deslizou 2,3%. A banca foi o sector mais penalizado: Santander, Société General e Barclays, alguns dos maiores em queda.
Vários analistas frisaram que os planos austeros de combate aos défices em muitos países europeus podem limitar fortemente o crescimento, logo, as empresas arriscam-se a facturar bastante menos, o que é reflectido pelas bolsas. Isto no dia em que os líderes das maiores empresas portuguesas, acompanhadas pelo ministro das Finanças, chegaram a Nova Iorque para tentar seduzir os norte-americanos e levá-los a apostar em Portugal.
Segundo adiantou um analista de um banco de investimento, existe um conjunto de questões que preocupam os investidores. "Em primeiro lugar as finanças públicas de alguns países europeus, nomeadamente de Portugal, Grécia e Espanha; em segundo lugar, a maneira como os países vão pôr em prática as medidas restritivas, que irão de certa forma contribuir para reduzir o crescimento económico". "A necessidade de intervenção do Banco de Espanha na CajaSur, assim como os receios de cariz geopolítico [por causa da Coreia do Norte] contribuíram para agudizar o nervosismo", explicou.
Pedro Pintassilgo, analista da F&C, refere que "os mercados estão a reflectir aquilo que já se verifica há algumas semanas. Com a elevada volatilidade, os investidores estão a refugiar-se na dívida alemã". "Apesar disso, é de esperar que esta se venha a reduzir nos próximos tempos", mas concede que "a situação que se vive não é de pânico, mas há de facto algum risco".
Duarte Caldas, analista da IG Markets, explicou que até há coisas boas: "O facto de haver planos de austeridade em mercados de dívida que nunca tinham estado expostos aos especuladores, como Reino Unido e França; o aumento da taxa de poupança na Europa e o impacto no PIB europeu, que será de meio ponto percentual."
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