Plano de austeridade

Reino Unido: do ministro ao motorista, ninguém escapa ao machado

por Gonçalo Venâncio, Publicado em 25 de Maio de 2010   
7 200 000 000€: contenção da despesa atinge gastos dos políticos e funcionamento do governo
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Apenas 11 dias depois de ter tomado posse, a coligação Conservadora/ Democrata Liberal apresentou ontem o primeiro pacote de combate à "despesa inútil" do Estado. David Laws, o ministro do Tesouro, preferiu "o bisturi à serra eléctrica" e tratou de aviar 6,25 mil milhões de libras (7,2 mil milhões de euros) em gorduras do Estado. Um valor modesto quando comparado com as 704 mil milhões de libras de despesa projectada para 2010. Por isso, como avisou o liberal Laws, "isto é apenas o primeiro passo" na luta que o governo chefiado pelo conservador David Cameron vai dar ao défice recorde de 156 mil milhões de libras. "Fizemos o trabalho duro e identificamos gastos inúteis do governo que nos propusemos cortar este ano. Herdámos o país numa terrível situação económica mas vamos consertar as coisas", prometeu o chanceler do Tesouro, o conservador George Osborne. No entanto, Osborne recusou-se a confirmar que o plano de "Revisão da Despesa", a ser apresentado em Outubro, irá eliminar 300 mil postos de trabalho na função pública.

Ao longo da campanha Gordon Brown, antigo primeiro-ministro trabalhista, e o libdem Nick Clegg, agora vice-primeiro-ministro, sublinharam o potencial destrutivo do machado orçamental dos conservadores. "Vai pôr a retoma económica em causa", dizia Brown. "É claro que uns milhares de empregos vão ser eliminados até ao final deste processo. Mas estas medidas irão provavelmente alavancar a recuperação económica, mesmo no curto prazo, por oposição ao que aconteceria sem elas: uma escalada das obrigações do tesouro e taxas de juro crescentes", explica ao i o economista chefe do think-tank britânico Policy Exchange, Andrew Lilico.

No Reino Unido, o exemplo vem mesmo de cima e depois de Vince Cable, o ministro da Economia, ter abdicado do seu Bentley, agora é a vez de Laws encostar o seu Jaguar ministerial. Na verdade, como parte deste pacote de medidas contra o desperdício, todos os ministros estão proibidos de ter um carro com chauffeur. Laws já advertiu: "Espera-se que os ministros vão a pé para o trabalho, usem transportes públicos ou entrem em esquemas de car pooling. Isto permitirá grandes poupanças." Tal como o fim das viagens do governo e burocratas em primeira classe (45 milhões de libras) ou os custos com consultoria externa (mil milhões de libras).

O fardo orçamental que a coligação Conservadora/Liberal Democrata carrega é de tal modo pesado que nem o paralelo histórico com os primeiros anos de governação de Margaret Thatcher colhe junto dos analistas: "Não, não é comparável. Em 2010 a situação é muito pior. Thatcher herdou um défice de 4% do produto. A coligação herda 9% do PIB", explica Lilico.

No longo prazo, o objectivo da coligação é alterar o relacionamento entre o Estado e o cidadão. Mas os próximos tempos serão, previsivelmente, de grande contestação social. Andrew Lilico explica porquê: "Nos próximos três ou quatro anos teremos de cortar 11% na despesa. Desde o pós-guerra, os maiores cortes que vimos, 4%, foram os dos anos 1977-78 e já esses provocaram grande turbulência. Por isso, os efeitos sociais de um programa três vezes mais apertado deverão ser muito sérios."

Apesar do conforto bipartidário na aprovação das medidas de austeridade, as ondas de choque também deverão ser sentidas no seio da coligação Lib-Con. "É claro que há a possibilidade de, a determinado altura, haver cisões no que diz respeito às prioridades na redução da despesa", conclui o analista.


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