Restaurante
Há vida no Aya para além da morte do grande sushiman
por Clara Silva, Publicado em 27 de Maio de 2009
Takashi Yoshitake abriu há 17 anos o primeiro restaurante japonês de Lisboa. Em Janeiro morreu e deixou a cozinha do Aya entregue à mulher
Foi o chefe Takashi Yoshitake quem primeiro ensinou aos portugueses a arte de comer sushi, numa altura em que falar deste prato era sinónimo de caras enjoadas. Hoje já ninguém estranha o sushi, mas há 17 anos "os clientes ficavam escandalizados porque imaginavam que iam comer um enorme peixe cru".
Em 1992, quando abriu o Aya, o primeiro restaurante japonês de Lisboa, na Rua das Trinas, Yoshitake não adivinhava que a sua habilidade a preparar sushi ia conquistar até os mais desconfiados. Os pratos faziam tanto sucesso que decidiu abrir mais três restaurantes na capital, dois nas Twin Towers, em 2002, e, em 2008, um grande espaço com capacidade para 150 pessoas em Carnaxide. Entretanto fechou o da Rua das Trinas.
"Takashi não viveu tempo suficiente para ver todos os lugares cheios", conta a sua mulher, Megumi. Em Janeiro, Yoshitake morreu com 55 anos depois de uma complicação pós-operatória, assunto que é tabu para a família. A morte foi inesperada e Megumi Yoshitake foi obrigada a assumir a responsabilidade da cozinha do Aya. Apesar disso, não gosta de aparecer, recusa ser fotografada e atribui o mérito do continuado sucesso à equipa do Aya. "Yoshitake era o pai, mas felizmente tem muitos filhos", explica a viúva. "Por trás de cada prato está uma equipa de 70 pessoas e todas aprenderam com o mestre."
Como não cozinha, Megumi prova os pratos que saem para as mesas para se certificar de que têm o mesmo sabor dos que eram confeccionados pelo marido: "Os que estão na casa há mais tempo sabem o sabor exacto da comida."
A lista de receitas do Aya inclui mais de 200 pratos, todos inventados por Yoshitake. "Sempre que se lembrava de uma receita escrevia-a num papel e tentava ensiná-la aos cozinheiros", seguindo o método de ensino japonês, de "aprender a observar os outros". E era assim que na cozinha do Aya os empregados aprendiam, ao ver Yoshitake preparar sushi. "Muitos deles eram sushimen noutros restaurantes, mas no Aya eram meros ajudantes." As receitas inventadas por Yoshitake só chegavam à ementa quando o mestre acreditava que os seus cozinheiros estavam aptos a recriá-las.
Sem sucessor No Aya há agora dois grandes sushimen, Aron e Yoshio, mas nenhum deles é ainda digno sucessor de Yoshitake: "Ainda não têm capacidade para criar pratos." E o trabalho é complicado: é preciso sensibilidade para trabalhar o peixe, "calcar a mais pode torná-lo mole, calcar a menos pode deixar escamas". Além disso, Takashi Yoshitake era o único sushiman em Portugal com licença para fazer fugu, um prato de peixe-balão que mal preparado pode ser venenoso. O futuro do Aya está por isso em manter a qualidade da comida. "Está tudo como antes", conta a viúva. "Os pratos são iguais, o senhor que nos ajuda a escolher o peixe é o mesmo de há 17 anos. Os clientes são os mesmos. Mas já namoraram, casaram e tiveram filhos."
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