O bloco central parece convencido de que as responsabilidades da brutal crise económica e internacional são dos trabalhadores
Esta crónica não pode deixar de ser um apelo: participe na manifestação convocada pela CGTP para o próximo sábado, dia 29 de Maio, às 15h00, entre o Marquês de Pombal e os Restauradores, em Lisboa. A aposta é simples e racional: na ausência da
"pressão da rua" convencionalmente desdenhada, é sobre a esmagadora maioria dos trabalhadores assalariados - do público e do privado, mais ou menos precários, empregados ou de-sempregados - que continuará a recair todo o fardo da crise de um sistema económico cada vez mais disfuncional.
Aliás, o
bloco central parece estar convencido de que as responsabilidades pela brutal crise económica internacional são dos trabalhadores, dos direitos que uma parte deles conquistou e do Estado social que as suas lutas fizeram surgir. Estranhamente, a lógica das medidas de austeridade nunca é anunciada: usar o
desemprego de dois dígitos, a redução dos
direitos sociais, sobretudo no subsídio de desemprego, e a austeridade orçamental, em geral, para favorecer a aceitação pelos trabalhadores mais vulneráveis de reduções substanciais do seu poder de compra. Julgam que assim se promoverá uma recuperação económica assente nas exportações devido à redução dos custos laborais. A enésima rodada de redução dos direitos laborais dá uma ajuda a este projecto económico de compressão do mercado interno.
Esquecem-se alguns
detalhes nacionais e europeus
: os salários reais em Portugal têm crescido, em média, de acordo com a evolução da produtividade, como aliás deve ser, mas as desigualdades salariais abissais tornam as médias enganadoras; os
Estados sociais das periferias ainda são relativamente frágeis, quando comparados com os do centro da Europa; a crise, que explica o descalabro das
finanças públicas, é o resultado das políticas de liberalização económica e do correspondente crescimento das desigualdades; os governos europeus, devido em parte ao desenho politicamente enviesado da
construção europeia, estão apostados nas mesmas receitas de austeridade orçamental que condenam o conjunto da economia europeia e, logo, as exportações e as finanças públicas nacionais.
Neste contexto, o
movimento sindical revela uma aguda percepção do desastre em curso, organizado por elites nacionais e europeias que fazem de tudo para agradar a "mercados" cada vez mais irracionais e, em última instância, incompatíveis com a escolha democrática. A capacidade de resistência social e de protesto é a única variável que pode baralhar os cálculos dos que querem fazer desta crise uma oportunidade para dar novo fôlego a utopias de mercado fracassadas e injustas. A manifestação da
CGTP é uma hipótese para todos os que sofrem o impacto das medidas de austeridade fazerem ouvir a sua voz em face da insensatez económica e da insensibilidade social de quem nos governa. De Lisboa a Bruxelas, passando por Berlim...
Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas (www.ladroesdebicicletas.blogspot.com)
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